Violência-contra-a-mulher
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O relacionamento homem-mulher permeado pelo machismo e o feminismo

É certo que a psicologia, enquanto ciência e profissão, tem colaborado muito para entendermos o ser humano e as diferenças específicas entre homens e mulheres. Porém, alguns autores, como Freud, deixam a desejar em alguns aspectos ao colocar a mulher numa posição inferior ao homem, quando o mesmo fala em “complexo de castração” e “inveja” devido à percepção da ausência do órgão genital masculino no processo de desenvolvimento da mulher.

Para o psiquiatra e analista junguiano Carlos Byington, não existe necessariamente um “complexo de castração” ou “inveja do pênis” na mulher. Para ele, a “identidade das coisas na consciência não se forma diretamente pelas vivências (…). Vou descobrindo quem eu sou, junto com a descoberta de quem eu não sou”.

Segundo o autor, existe uma confusão nos papéis masculinos e femininos, que fazem com que os homens fiquem extremamente identificados com a figura patriarcal, forte e provedora, e a mulher com a figura matriarcal, submissa e castrada.

Aliás, em algumas tribos na África, as mulheres são literalmente castradas. Casos de mutilação da genitália feminina em tribos africanas já foram retratados em diferentes mídias, como  no filme Flor do Deserto. A trama, que se baseia numa história real, mostra o sofrimento de muitas mulheres que, ainda na infância, passam pelo processo de cliterotomia – uma “espécie de cirurgia” onde é retirado o clítoris e a mulher é costurada para que possa ser “aberta” pelo seu marido na noite de núpcias. A personagem central do filme, Waris Dirie, é uma mulher nascida na Somália que aos três anos de idade passou pelo ritual da cliterotomia. Após fugir de sua família, Woris chega à Inglaterra onde aos poucos foi se inserindo na sociedade ocidental e se redescobrindo como mulher. E, ao tomar consciência do que aconteceu a ela, tornou-se ativista na luta pela erradicação da prática da mutilação feminina, chegando a ser embaixadora da ONU.

De acordo com Byington, “em certas sociedades, porém, as próprias moças pedem para ser mutiladas, pois o fato de não o serem significa que gostam de sexo e, por isso, devem ser preteridas para casar, pois não podem ser ‘moças de família’”. Isto significa dizer que a mutilação da mulher não é somente física, mas também emocional. A ela não é permitido sentir prazer sexual se quiser ser uma “moça de família”, uma moça que mereça um homem para se casar.

Por mais que este tipo de ritual físico não aconteça em nossa cultura, existe um processo psíquico semelhante, onde as mulheres são compelidas a terem determinados comportamentos que preservem “a moral e os bons costumes” de modo a continuarem a ser rotuladas pela sociedade como “moças de família”. Nesse cenário, homens com pensamentos machistas e até mesmo mulheres com o mesmo pensamento atacam diariamente outras mulheres por seus “desvios” de comportamento segundo a tal “moral”, perpetuando a ideologia de que o homem é superior à mulher.

Em contraposição ao pensamento machista, face ao progresso dos direitos humanos, fruto do diálogo social, “desencadeou-se na cultura ocidental um movimento de afirmação da mulher em todas as dimensões existenciais. No entanto, deformado pelas muitas defesas estruturadas nos milênios de opressão, o feminismo surgiu, principalmente na segunda metade do século XX, como um caminho de autossuficiência, prepotência e competição com o homem pelo poder, baseado nas mesmas deformações do machismo e da misogenia que, através dos tempos, inviabilizaram a capacidade de amar do homem. (…) Esse movimento reativo inviabilizou a ultrapassagem da organização patriarcal para alcançar um relacionamento na liberdade e na amorosidade da alteridade”.

Contudo, muito se engana quem pensa que somente a mulher sai em desvantagem no dualismo machismo vs. feminismo. Ambos acarretam em consequências ruins no desenvolvimento psíquico para ambos os lados: o homem não aprende a lidar bem com sua afetividade e a mulher, por sua vez, perde a confiança em suas capacidades intelectuais.

Segundo Byington, “ao se dar conta e ao começar a ser tratado como menino, por volta dos 2 anos de idade, ele [o homem] percebe que, pelo fato de ser homem, não é igual à mãe, e a menina percebe também, que por ser mulher, não é igual ao pai”. A princípio, para a menina isso não vem a ser um problema, já que pode manter qualquer comportamento parecido com o da mãe sem ser censurada. Já para o menino, ao contrário do que ocorre com a menina, ao exercer qualquer atividade tipicamente tida como feminina está sujeito a ser “ridicularizado e chamado pejorativamente de mulherzinha, para dizer o mínimo”.

Para o autor, “essa separação abrupta e traumática da identificação com a mãe afetará a função afetiva do menino (…) A compensação dessa ruptura com a mãe, que seria naturalmente mitigada e compensada pela relação afetiva com o pai, também é cerceada pela ameaça de homossexualidade, que, em grau maior ou menor, podem também ter limitado o amadurecimento da função afetiva dele”.  

Como consequência disso, a mulher consegue desenvolver melhor sua capacidade afetiva do que o homem. No entanto, sua autoestima, confiança, inteligência e capacidade de liderança ficam afetadas à medida em que, no decorrer de sua história, o modelo patriarcal privilegiar mais o homem em detrimento da mulher. Entretanto, “essa ferida poderá ser compensada com um pai que admire sua inteligência e seu desempenho escolar, mas é agravada pela desqualificação da formação intelectual da mulher na sociedade de dominância patriarcal”.

O homem, por sua vez, passa a privilegiar a sexualidade no relacionamento com a mulher e se torna inseguro afetivamente. Isso “frequentemente o leva a tratar a mulher com um autoritarismo defensivo que varia do controle moral e financeiro à opressão física e mental, convergindo para o sadismo,  o espancamento e até mesmo o homicídio”.     

Fica evidente, portanto, que um relacionamento muito identificado com o modelo patriarcal distancia homens e mulheres e afirma cada vez mais que os dois são antagônicos e, por isso, impossível de se complementarem.

Enfim, gostaria de finalizar este texto com mais uma citação de Byington que  nos ajuda a refletir o relacionamento homem-mulher através do diálogo e da alteridade (capacidade de se colocar no lugar do outro) no pensamento da psicologia analítica junguiana:

Precisamos compreender, então, que a função estruturante do amor só pode ser profundamente elaborada e vivenciada quando o homem e a mulher se tornam capazes de se conhecer ao exercerem plenamente a posição dialética, que inclui os arquétipos da alteridade, da anima e do animus. Essa elaboração é inseparável da liberdade, da consideração mútua e dos direitos iguais para o desenvolvimento do homem e da mulher como companheiros no processo de individuação de cada um.

Referências

BYINGTON, Carlos Amadeu Botelho. As polaridades masculino e feminino, adulto e criança e o método simbólico, na teoria do conhecimento. Núcleo de Estudos Junguianos. Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Disponível em < http://www.pucsp.br/jung/portugues/publicacoes/artigos_as_polaridades_masculino_feminino.html>. Acesso em 15 fev. 2016.

BYINGTON, Carlos Amadeu Botelho. A difícil arte de amar: A limitação do conhecimento entre homem e a mulher, uma interpretação da psicologia simbólica junguiana. Junguiana: Revista da Sociedade Brasileira de Psicologia Junguiana. São Paulo, v. 32/1, p. 63-70. n.1/2014.