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O Pequeno Príncipe e a psicologia analítica – Parte 1: A psicologia do arquétipo da criança


Este texto faz parte de uma pesquisa realizada por mim e minha amiga, Kazumi Uehara, e será apresentado aqui em 4 partes. O texto fala a respeito da relação entre a psicologia e a arte, e, mais especificamente, sobre a relação entre a psicologia analítica junguiana e a obra literária O Pequeno Príncipe, do francês Antoine de Saint-Exupéry.

Mas afinal, qual seria a relação entre a psicologia e a arte? Em primeiro lugar gostaria de deixar claro que o papel da psicologia não é, de forma alguma, explicar a arte, apesar dela ter feito muito isso. Mesmo porque são fenômenos que se complementam entre si. Entretanto, a arte, na perspectiva junguiana, pode ser considerada uma experiência arquetípica de caráter inconsciente para o sujeito que faz a obra e aquele que entra em contato com ela.

Escolhemos O Pequeno Príncipe porque gostaríamos de entender como essa história em particular, escrita entre os anos 1941 e 1943, se tornou mundialmente conhecida até os dias de hoje. Tamanho sucesso nos leva crer que aqueles que entram em contato com a obra tenham uma experiência arquetípica com o motivo da criança, do puer aeternus (eterno jovem) e também por meio dos símbolos encontrados na história.

A relação entre O Pequeno Príncipe e a psicologia analítica

O que nos fez dedicar esta pesquisa à obra O Pequeno Príncipe é a figura do garoto, o próprio Pequeno Príncipe, bem como todo mistério que circunda sua pequena vida. Inquieta-nos um menino que, com características e atitudes tão peculiares, resplandece como uma criança dotada de sabedoria e simplicidade. Uma criança capaz de ensinar o adulto que as coisas que verdadeiramente importam na vida estão longe das responsabilidades próprias do mundo adulto, nas quais o homem despende quase que a maior parte de seu tempo.

Sendo assim, procuramos por artigos, livros e revistas que abordassem o conto O Pequeno Príncipe e a “criança”, buscando sua relação com a psicologia analítica. No entanto, essa tarefa restou-nos infrutífera. Apesar de Lima e Silva (2010) discutirem em seu artigo sobre os símbolos encontrados ao longo da história de Saint-Exupéry, seu trabalho é voltado para o campo da pedagogia.  Souza e Ribeiro (2014), por outro lado, chegam a analisar o conto sob o ponto de vista da psicologia, porém o fazem sob a ótica da abordagem psicanalítica freudiana e lacaniana. Chagas (2015), por sua vez, discorre com base na psicologia analítica, no entanto, detém-se na discussão acerca do encontro do personagem Pequeno Príncipe com a raposa, e os significados que se pode extrair dessa passagem. Vassallo (2010) também se utiliza da abordagem junguiana, contudo seu trabalho é voltado para a reflexão sobre o autoconhecimento que o livro pode proporcionar, além de discorrer sobre a individuação através da arteterapia. Portanto, dada a notável falta de material extensivo a respeito do assunto tema deste trabalho, atrelado ao nosso desejo de aprofundar o motivo pelo qual a obra é reconhecida mundialmente, decidimos envidar esforços nesta.

Como nosso intuito é fazer uma leitura da obra através do prisma da psicologia analítica, utilizaremos como referência o próprio Jung, iniciador dessa escola. Conforme já apontado anteriormente neste trabalho, segundo Jung, existe duas formas distintas de criação da obra literária: o psicológico e o visionário (SILVA, 2004). Levando em conta tais formas, acreditamos que O Pequeno Príncipe pertença às duas categorias. Consideramos a obra psicológica, pois seu conteúdo nos é familiar, isto é, fundamenta-se nas experiências humanas como quando o personagem Pequeno Príncipe chora ou, até mesmo, quando sente saudades de seu planeta. Também a consideramos visionários por trazer em si um caráter transcendente que nos faz ter uma experiência profunda com seu conteúdo, o que significa haver algo na narrativa que nos move e inquieta sem que saibamos explicar ao certo o porquê (SILVEIRA, 2011). Arriscamos dizer que talvez seja exatamente por esse seu caráter transcendente que o livro é tão conhecido em todo mundo.

De acordo com Silva (2004), “na obra psicológica o autor antecipa a psicologia particular de seus personagens”, portanto “sobra ao psicólogo pouco a acrescentar que o autor já não o tenha dito e muito melhor”. Do ponto de vista de Jung, nesses casos “o psicólogo poderia, no máximo, completar ou criticar” uma obra (SILVA, 2004). Para Curi (2010), a obra visionária é tida como uma “fúria divina” onde o sujeito não possui nenhum controle, o “corpo não funciona da mesma maneira” e é “como se tivesse um corpo próprio”. Seu conteúdo é um conjunto de símbolos. Quanto a isso, a psicologia analítica pode dar sua contribuição ao tentar decifra-los.

Portanto, nossa intenção é abordar a obra de Saint-Exupéry, explorando-a, se assim podemos dizer, em termos junguianos (SILVIA, 2004). Dito isto, julgamos apropriado discorrer inicialmente sobre o arquétipo da criança, a criança interior e o arquétipo do puer aeternus, apontar seus desdobramentos com a obra do Pequeno Príncipe, bem como apresentar os autores que se dedicaram às temáticas, como Jung (2011), Abrams (1999), Von Franz (1999) e Helen M. Luke (1999). Nossa contribuição, porém, vai além de uma simples leitura arquetípica do conto ou de um levantamento do que foi dito por diferentes autores. Queremos, portanto, mostrar alguns aspectos da obra a partir de nossa experiência com as formas psicológica e visionária.

Embora Silveira (2011) afirme que no processo psicológico existe uma intencionalidade por parte do artista não podemos afirmar que ela seja alcançada pelo leitor. O mesmo é possível supor das obras ditas visionárias, isto é, nunca saberemos exatamente qual será a experiência do leitor ao entrar em contato com a obra, independentemente da intencionalidade de seu criador ou mesmo do arquétipo que se apossou dele.

Além dessas questões alguém poderia dizer que O Pequeno Príncipe, por se tratar de uma obra traduzida para tantos idiomas e dialetos diferentes (O PEQUENO PRÍNCIPE, 2014) teria perdido algum significado e, portanto apenas as pessoas de língua inglesa e francesa, idiomas originais da obra (ROMEU, 2013), seriam tocadas de alguma forma pela obra, o que não é verdade. O fato de ter sido traduzida demasiadamente não fez com que a obra perdesse sua força, mas pelo contrário, mostra toda sua potência. E por isso arriscamos dizer que é justamente pelo caráter transcendente que O Pequeno Príncipe é tão conhecido ao redor do mundo.

A psicologia do arquétipo da criança

Jung introduz a noção de arquétipo como sendo uma estrutura do inconsciente coletivo que está ligado a conteúdos mitológicos. Nesse contexto, o mito traduz-se como uma mentalidade primitiva, sendo que a “mentalidade primitiva não inventa mitos, mas os vivencia” (JUNG, 2011, p. 114). De acordo com Jung, por trás de toda ação humana “sempre haverá oculto […] um mito em roupagem nova e desconcertante” (JUNG, 2011, p. 118). Haja vista que a arte é uma ação do homem, podemos sugerir que toda obra de arte é portadora de conteúdo possível de transcender a consciência humana.

O conteúdo arquetípico é essencialmente inconsciente, o que significa dizer que não se trata de uma experiência pessoal do indivíduo, já que a consciência não tem controle algum sobre o arquétipo. Além do aspecto inconsciente, o arquétipo expressa-se por meio de metáforas indecifráveis no campo da razão. Não raro, o arquétipo figura como fonte de sofrimento, comparados por ele à neurose e à psicose. Para Jung, não existe a possibilidade de nos livrarmos dos arquétipos de uma vez por todas, “a não ser que estejamos dispostos a pagar o preço de uma neurose” (JUNG, 2011, p. 118).

Segundo Jung, o motivo da criança é extremamente mutável, podendo se manifestar de diversas maneiras, seja através dos sonhos ou da imaginação ativa. O motivo da criança pode aparecer, por exemplo, como no modelo cristão, com o qual estamos mais familiarizados (JUNG, 2011). Nesse modelo, o menino Jesus é considerado o messias e é símbolo de salvação e redenção para os cristãos. Tal manifestação é tão marcante que todos os anos os cristãos rememoram seu nascimento, período que é marcado pela preparação da chegada do menino que está para nascer na esperança de algo novo ou uma vida nova.

A criança também pode se manifestar a partir de níveis mais primitivos, como, por exemplo, por meio de animais “como o crocodilo, dragões, serpentes ou macacos” (JUNG, 2011, p. 120). Podemos, ainda, encontrá-lo representado no centro de uma mandala ou em sonhos; como um filho ou filha; ou, mesmo, com características das culturas chinesa e indiana, com aspecto cósmico “sob as estrelas, […] com a fronte cingida por uma coroa de estrelas, filho do rei ou de uma bruxa com atributos demoníacos” (JUNG, 2011, p. 120). Tal esclarecimento nos impulsiona quase que imediatamente à história do Pequeno Príncipe, pois podemos observar características correlatas no conto de Saint-Exupéry (2009).

No conto, o garoto mora em um pequeno planeta, supostamente o “asteroide B 612”, que fica em algum canto do universo. Misteriosamente, o menino chega à Terra ao se aproveitar de uma migração de pássaros selvagens que partiram de seu planeta (SAINT-EXUPÉRY, 2009). É interessante notar que, em momento algum, o garoto intitula-se como príncipe, mas é o aviador, com o qual o menino se depara ao chegar à Terra, que o declara dessa forma ao narrar seu encontro com ele.

Numa visão psicológica, os cabelos dourados, tantas vezes mencionados na história, podem ser entendidos como alusão a uma coroa. No entanto, já que, numa visão adulta, uma criança “não pode ser rei”, o garoto foi considerado um príncipe pelo adulto aviador. Em contrapartida levando em consideração a perspectiva visionária, o Pequeno Príncipe pode ser entendido como símbolo do novo e de ingenuidade, e ele é uma grande novidade para o aviador. Além disso, o motivo do rei e o da criança real não são ideia novas, podemos observar sua manifestação em diferentes expressões, por exemplo, na própria psicologia, quando se refere a sua “majestade o bebê” ou na imagem da criança coroada.

No conto, o aviador, que corre o risco de morrer no deserto caso não consiga consertar seu avião, não compreende porque o menino está mais preocupado com o desenho de um carneiro do que com a situação de perigo. Nesse sentido seria possível considerar que a consciência infantil elege seus próprios assuntos e interesses, se colocando em oposição às preocupações típicas de um universo adulto. Enquanto o universo adulto conserta um artefato voador, o Pequeno Príncipe conta com a ajuda do universo instintivo, viajando com a ajuda de pássaros selvagens. Para o menino, que se mostra ingênuo, o risco da morte passa despercebido ou passa por um tipo diferente de percepção. Tanto a morte do aviador perdido no deserto como sua própria morte como consequência de uma picada da serpente. E é a simplicidade deste olhar que transcende nossa consciência. Não é de se estranhar que ele não responda nenhuma pergunta do aviador, afinal de contas, qualquer explicação dada por ele seria em vão para a razão humana, pois seu olhar é novo e ingênuo, e o adulto não é capaz de alcançar.

Observando o conto uma vez mais através da perspectiva psicológica, Jung (2011) relata que algumas pessoas podem passar pela experiência de se enxergarem como criança em alguma fase da vida. Essa experiência quer aconteça em estado de vigília ou em sonho, ocorre por conta de um conflito entre o estado presente e passado, que é quando o indivíduo pode ter vivenciado uma ruptura tão violenta da fase infantil para fase adulta que ficou carente de ser criança (JUNG, 2011).

Nesse sentido, nos é possível tecer a hipótese de que o personagem Pequeno Príncipe seja a criança do próprio aviador, o narrador, e não o autor da história, Saint-Exupéry, que também era piloto de avião. O garoto, ainda na perspectiva psicológica, pode ser considerado a criança que o aviador deixou de ser ao se tornar “uma pessoa grande”. Ele surge no momento em que o aviador passa por uma crise, quando da queda de seu avião no deserto, dando-lhe a grande experiência com a beleza e a ingenuidade da criança. Entendemos que é por esse motivo que, na história, o garoto pode compreender o desenho do elefante sendo engolido pela jiboia, pois foi o próprio aviador quem o fez ainda criança. Mas, por conta das incansáveis explicações exigidas pelos adultos a fim de entenderem seus desenhos, o aviador acabou por abandonar, aos seis anos de idade, uma “promissora carreira de pintor” (SAINT-EXUPÉRY, 2009, p. 08) e escolheu fazer carreira na aviação (SAINT-EXUPÉRY, 2009). Em outras palavras, podemos dizer que houve um rompimento muito precoce do aviador com sua criança, que, em razão do conflito na vida adulta, vem à tona personificada na figura do Pequeno Príncipe.

Segundo Jung (2011), toda manifestação arquetípica está relacionada a um mito em uma nova roupagem. O conto do principezinho, por sua vez, é repleto de manifestações arquetípicas e, consequentemente, passiveis de serem compreendidas como figurações mitológicas. Conforme posto anteriormente, tanto o arquétipo quanto o mito são estruturas do inconsciente coletivo, o que implica que não exercemos controle algum sobre seu conteúdo e, como descreve a forma visionária, nos causam estranheza por ser repleta de simbologia (SILVEIRA, 2011).

Mesmo não sendo explícito o mito ou os mitos que “se escondem” por trás da história do Pequeno Príncipe, cremos poder comparar, nesse primeiro momento, o aviador ao mito grego de Sísifo. Diz a mitologia que Sísifo foi sentenciado à pena perpétua de repetir a mesma tarefa de empurrar uma pedra até o topo de uma montanha. Contudo, toda vez que estava quase alcançando o topo, a pedra era atraída por uma força irresistível que a fazia rolar montanha abaixo até o ponto de partida, invalidando completamente o duro esforço despendido por Sísifo (WIKIPÉDIA, 2015j). Tal qual Sísifo que estava “cego” pela tarefa de rolar sua pedra sem observar o ambiente ao redor, o aviador demonstra estar mais preocupado em consertar seu avião sem notar o menino que clama por sua atenção.

Para o Pequeno Príncipe, o aviador possui uma vida vazia e sem sentido, como a dos demais homens da Terra, e está sempre preocupado com as tarefas cotidianas. Durante a história é possível perceber que o garoto tenta mostrar ao aviador que existem razões mais nobres para se ocupar, como, por exemplo, gastar mais tempo com uma pessoa até criar um laço de amizade. O garoto, nesse sentido, transmite o que aprendera com a raposa: que “os homens não têm tempo de conhecer coisa alguma”, pois “compram tudo já pronto nas lojas. Mas, como não existem lojas de amigos, os homens não têm mais amigos” (SAINT-EXUPÉRY, 2015, p. 67).

E é justamente por conta dessa característica humana, em ocupar a vida com o que é efêmero, que o personagem Pequeno Príncipe considera a Terra um “[…] planeta engraçado […] completamente seco, pontudo e salgado” (SAINT-EXUPÉRY, 2009, p. 62). Na visão do garoto, os homens são sem imaginação, o que denuncia que a doçura e a criatividade próprias da criança foram esquecidas, restando apenas a rotina árida e sem vida das pessoas que adoram números.

É interessante notar a grande dificuldade que é explicar a criança por ela mesma, pois, ao tentarmos falar a respeito da criança, o que nos surgiu como tema central foi o mundo sem sentido dos adultos. Segundo Hillman, citado por Araújo e Guimarães (2012), “o que quer que se diga acerca das crianças e da infância não é de todo, realmente, acerca das crianças e da infância”. A nós, isto demonstra a dificuldade do adulto que, preso em seu mundo, não consegue perceber a criança, pois este fala dela a partir de si mesmo, pelo que observa e não pelo que ela é. Por essa razão se torna imperiosa em nossa cultura duas ações opostas para lidar com a criança, a necessidade de educa-la, aculturá-la, ou seja, afastá-la de seu primitivismo, e, por outro lado, a importância de protegê-la da própria cultura, criando um universo infantil protegido e ao mesmo tempo afastado, protegendo o mundo adulto dos inconvenientes da infância. Mas, afinal, de onde vem e o que seria a criança?

Segundo Jung (1993), citado por Araújo e Guimarães (2012, p. 130-131), a criança é

[…] como um recém-nascido, sai do seio do inconsciente […] personifica as forças vitais que residem para além do círculo limitado da consciência […] Ela representa o impulso mais forte e iniludível de todo o ser humano, quer dizer, o impulso de autorrealizar-se […]

De acordo com o pensamento junguiano, a criança é transcendente e cheia de força capaz de realizar atos heroicos. E, se o encontro com a criança transcende a consciência, podemos compara-la ao mito. Nesse sentido, podemos encontrar histórias de crianças concebidas de forma divina que foram grandes heróis.

O motivo da criança concebida de forma divina é bastante comum na tradição judaico-cristã, como mostram, por exemplo, as histórias bíblicas de Issac, Moisés, João Batista e Jesus. Isaac era considerado o filho da promessa de Deus a Abraão, pois humanamente seria impossível ter um filho devido à idade avançada de Abraão e de sua esposa, Sarah. Moisés era um hebreu que deveria ter sido morto a mando do Faraó, mas foi encontrado ainda recém-nascido pela filha do imperador egípcio, que cuidou dele como se fosse seu filho legítimo. Assim, Moisés pôde ser protagonista da libertação do povo hebreu da escravidão no Egito. João Batista, primo de Jesus, tal qual Issac, foi o filho da promessa para Isabel e seu pai Zacarias, ambos já anciãos. Na vida adulta João foi um grande anunciador da palavra de Deus e da salvação. E, por fim, Jesus Cristo, que é tido como o maior, nasceu em Belém da Judéia numa manjedoura. Filho legítimo de Maria fecundada pelo Espírito Santo, Jesus anunciou o evangelho, foi perseguido, morto, sepultado e ressuscitou no terceiro dia trazendo a salvação para todos os povos (BÍBLIA, 2002).

Nessa mesma linha de pensamento podemos encontrar igual relação nas histórias de Hércules e do Super-Homem, como já discutimos anteriormente neste trabalho. Ambos foram crianças tidas como “divinas” e posteriormente transformaram-se em heróis, de forma análoga à história dos personagens bíblicos. Podemos enxergar esse mesmo movimento no personagem Pequeno Príncipe. O garoto do asteroide B 612 pôde transformar de alguma forma a vida do aviador e de todos aqueles que entram em contato com a obra. Portanto, existe algo em comum na forma como a criança age nesses casos: ela aparece como símbolo de transformação, esperança, poder e salvação.

Assim, numa perspectiva visionária, podemos supor que o Pequeno Príncipe é uma espécie de herói capaz de realizar no aviador o que ele não poderia empreender sozinho. A questão mais intrigante é que ele não segue a lógica convencional dos heróis dos clássicos da mitologia, ou mesmo, dos contemporâneos. Justifica-se isso pelo fato de que, se assim o fosse, teria consertado o avião e o aviador poderia ter seguido seu caminho. No entanto, temos a impressão de que, num primeiro momento, o menino está apenas importunando o aviador enquanto este tenta consertar seu avião, quando, na verdade, ele está mostrando ao aviador que de nada vale voltar para casa se for para continuar tendo a mesma vida de vãs preocupações do adulto.

Referência

GUERRA, Rafael Henrique e UEHARA, Silvia Kazumi. O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry, sob a ótica da psicologia analítica junguiana. São Paulo: Centro Universitário São Camilo, 2015. 80 p.