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O Pequeno Príncipe e a psicologia analítica – Parte 2: A criança interior

Este texto faz parte de uma pesquisa realizada por mim e minha amiga, Kazumi Uehara, e esta é a parte 2 de 4. A publicação fala a respeito da criança interior, isto é, a criança que um dia fomos e ainda existe dentro de nós. O contato com a criança interior pode ser muito saudável. Contudo dependendo da intensidade dessa identificação, ela poderá ser muito prejudicial. O tema será apresentado ao leitor através de um olhar da psicologia analítica junguiana para a obra O Pequeno Príncipe, do francês Antoine de Saint-Exupéry.

Para uma melhor compreensão deste texto, sugiro primeiro a leitura da seção “A relação entre O Pequeno Príncipe e a psicologia analítica“, que introduz a primeira parte desta série de textos que redigi a respeito da psicologia analítica e sua relação com a arte e a obra O Pequeno Príncipe.

A criança interior

A obra O Pequeno Príncipe é um convite a despertar nossa alma para o encontro com a criança e, a partir daí, enxergarmos a vida de forma mais simples (VIANNA, 2015). De acordo com Saint-Exupéry (2009), “todas as pessoas grandes foram crianças”, mesmo que embora “poucas se lembram disso”. Justamente por isso que o escritor estampa na dedicatória de seu livro os dizeres: “A Leon Werth – quando era criança” (SAINT-EXUPÉRY, 2009). Mas, o que significa dedicar o livro a um adulto “quando era criança”? Onde encontramos essa criança que até mesmo Jung (2011) considera parte importante do processo analítico?

Foi a partir desses questionamentos que decidimos figurar Jeremiah Abrams dentre as referências de nossa pesquisa. Abrams é terapeuta junguiano especialista em sombra. É professor, pesquisador, escritor e organizador dos best-sellers: “Encontro da sombra: o poder escondido do lado obscuro da natureza humana”; “A sombra na América: recuperando a alma de uma nação”; e “O reencontro da criança interior” (JEREMIAH ABRAMS, 2015).

O texto “A criança interior” inicia com uma citação do antigo filósofo chinês, Chuang Tzu – “A criança é que conhece o segredo primordial da Natureza e é à criança em nós que retornamos. Nossa criança interior é simples e ousada o suficiente para viver esse Segredo” (ABRAMS, 1999, p. 11). O autor se utiliza da ideia do arquétipo da criança associado à filosofia chinesa para produzir um novo pensamento – o da criança interior.

Segundo Abrams, “todos nós carregamos aqui dentro uma criança eterna […]. E essa criança simbólica também nos carrega, carrega quem fomos, o registro de nossas experiências de formação, de nossos prazeres e dores” (ABRAMS, 1999, p. 11). Ou seja, para o autor todos nós temos uma criança interior simbólica que nos permite revisitar nossas experiências mais arcaicas. Todavia, depois de adultos, o acesso a essa criança pode ocorrer em maior ou menor grau.

Para Jung

[…] a tendência a empenhar-se em atividades regressivas tem a função positiva de nos manter ligados à criança, de ativar a criança interior. Ele disse que a regressão é uma tentativa genuína de alcançar alguma coisa necessária: a sensação universal da inocência infantil, a sensação de segurança, de proteção, de amor recíproco, de confiança, de fé – essa coisa que tem tantos nomes (ABRAMS, 1999, p. 12).

Portanto, deve haver um propósito para que a psicologia analítica entre em contato com a criança interior, isto é, não se trata de uma mera regressão ou uma espécie de retrocesso despropositado. De acordo com Abrams, a criança interior tem a capacidade de mostrar o melhor de nós mesmos e de nos tornar espontâneos e criativos. Para o autor, é possível reconhecer a voz dessa criança dentro de nós, uma vez que já fomos criança um dia. E essa criança “permanece conosco – para melhor ou para pior” (ABRAMS, 1999, p. 12).

Para Abrams, o gênio das ciências, Albert Einstein, é um exemplo de adulto que utilizou bem o contato com a criança interior. Mesmo na velhice, mantinha naturalidade, liberdade, e “perpétua sensação de maravilhamento, preservadas com assiduidade na vida adulta, constituíram a marca distintiva do caráter de Einstein […]” (ABRAMS, 1999, p. 13).

Em contrapartida, outro gênio no campo da música, Wolfgang Amadeus Mozart, é um exemplo malsucedido da criança interior na fase adulta (ABRAMS, 1999). Segundo seus biógrafos, Mozart foi incapaz de se desenvolver equilibradamente. Sempre perturbado pela busca da aprovação de seu pai, Mozart se via “prisioneiro do amor condicional, inflado pela grandiosidade […]. O seu gênio musical explodia intacto, mas suas condutas pueris levaram-no a desaparecer precocemente” (ABRAMS, 1999, p. 13).

Para Abrams, nos casos como o de Mozart, a criança quando forçada a se adaptar precocemente à vida adulta acaba se identificando com o falso self (ABRAMS, 1999). Neste momento, abrimos espaço para uma breve contextualização a respeito do falso self, linguagem essencialmente psicanalítica, a qual o autor se apropria para alinhavar seu conceito de criança interior.

Falso self é um conceito descrito pelo psicanalista Donald Woods Winnicott. Para esse autor, ele se estabelece no período em que o bebê é totalmente dependente da figura materna. Segundo Winnicott, a mãe precisa exercer uma função cuidadora que supra todas as necessidades do bebê, sendo que esse cuidado influenciará no desenvolvimento psíquico da criança. É a partir do contato saudável com a mãe que o bebê terá a capacidade de perceber o mundo externo e se reconhecer como real (KNIJNIK, 2011).

Contudo, quando ocorre uma falha nesse percurso, o falso self inicia sua função. O bebê se adapta excessivamente às necessidades da mãe e isso o tornará submisso ao mundo externo na esperança de sempre obter amor materno (KNIJNIK, 2011).

Zimerman, descrevendo o falso self, referiu-se a pessoas que desde criança desenvolvem uma forma imperiosa de adaptação e de preenchimento das expectativas da mãe e que isto ocorre para garantir o reconhecimento do amor da mãe. Essas pessoas utilizam esse mesmo recurso inconsciente de adivinhar o que o outro deseja para obter reconhecimento social. Usam a intelectualização e podem alcançar destaque profissional, mas sua construção precoce de um falso self faz com que carreguem permanentemente uma desconfortável sensação de futilidade e falsidade, por não conseguirem discriminar o que é o seu rosto e o que é máscara (ZIMERMAN, 2001 citado por KNIJNIK, 2011).

Segundo Abrams (1999), a criança autêntica fica por tanto tempo escondida que “quando o self adulto amadurece, não consegue mais reconhecer e recuperar a criança interior” (ABRAMS, 1999, p. 13). Assim, é à medida que nos distanciamos da criança interior que “as racionalizações ou a amargura substituem a espontaneidade e a clareza naturais do self” (ABRAMS, 1999, p. 13).

Apesar do motivo da criança interior ter aparecido no conceito popular nas últimas décadas, ele é atemporal e contemporâneo concomitantemente. É um conceito tão ancestral que acompanha a religião e pode ser observado “ao lado das primeiras formas de adoração da natureza e de religiões solares” (ABRAMS, 1999, p. 15). Os “deuses-crianças fizeram surgir, antes do início da nossa era, as crianças mitológicas divinas no mundo inteiro” (ABRAMS, 1999, p. 15).

Conforme já mencionamos, de acordo com a perspectiva psicológica, o Pequeno Príncipe pode ser a criança que o aviador deixou de ser quando precisou abraçar precocemente as obrigações da vida adulta. O garoto simples e ousado nunca responde às perguntas do aviador, já que ele mesmo é a resposta, a criatividade e a espontaneidade, pois, afinal de contas, trata-se da própria criança interior de seu indagador, ou seja, o aviador quando criança.

A sabedoria por trás desse encontro consiste em não utilizar a razão, mas sim o coração. Tocar a criança interior é como tocar em um raro e frágil tesouro. O próprio aviador é quem nos relata essa experiência no conto, ao narrar o momento em que segura o menino em seus braços: “tinha a impressão de carregar um frágil tesouro. Parecia-me mesmo não haver na Terra nada mais frágil […]. O que eu vejo não passa de uma casca.” (SAINT-EXUPÉRY, 1999, p. 76).

A experiência de tocar a criança interior transcende nossa compreensão e nos causa certa estranheza. Como é possível o poder de encontrar-se consigo mesmo quando criança e carregar essa criança nos próprios braços por tamanha fragilidade? Diríamos até que essa sensação de contradição é uma das características paradoxais das vivências arquetípicas se considerarmos as experiências mitológicas. Considerando a história de Jesus Cristo, por exemplo, que apesar de ser o messias salvador ao nascer teve que ser levado às pressas para o Egito, pois corria o risco de ser morto pelos soldados de Herodes (BÍBLIA, 2002), ou seja, é comum a situação de ambivalência quando o arquétipo da criança se manifesta.

A partida do Pequeno Príncipe entristece o aviador, que mesmo passados 6 anos de seu encontro com o garoto, momento em que a história é narrada, relata a despedida com grande pesar. Queixa-se de que nunca saberá se o carneiro comeu ou não a rosa do Principezinho, e tampouco saberá o que pode ter se sucedido com o garoto. Triste, sem a criança, volta à sua rotina de gente grande.

Seus amigos estavam felizes por seu retorno após a pane de seu avião no deserto, mas ele não podia dizer o mesmo, pois lhe faltava algo. “Os companheiros que me encontraram quando voltei ficaram contentes de me ver são e salvo. Eu estava triste, mas lhes dizia: ‘É o cansaço…’” (SAINT-EXUPÉRY, 1999, p. 89).

Analisando a tristeza do aviador ao voltar salvo para casa, após a pane em seu avião, entendemos que ele se sente incompleto e deslocado. Pois ele viveu o dinamismo da criança interior e adoraria estar sentindo ainda sua presença, mas não consegue enxerga um lugar acolhedor para o Pequeno Príncipe no mundo dos adultos. Para o aviador é penoso o retorno sem a criança, pois sabe que com ela a vida teria mais sentido e seria feliz, mas corre o risco de ser considerado desajustado por aqueles que não tiveram a mesma experiência.

Referência

GUERRA, Rafael Henrique e UEHARA, Silvia Kazumi. O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry, sob a ótica da psicologia analítica junguiana. São Paulo: Centro Universitário São Camilo, 2015. 80 p.