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  Paris Filmes

O Pequeno Príncipe e a psicologia analítica – Parte 3: Puer Aeternus

Este texto faz parte de uma pesquisa realizada por mim e minha amiga, Kazumi Uehara, e esta é a parte 3 de 4. Aqui você vai entender melhor o que é o Puer Aeternus (Eterno Jovem). Pessoas muito identificadas com o arquétipo do puer normalmente agem como adolescentes mesmo após a fase adulta. E isso causa uma série de sofrimentos para essas pessoas. O tema será apresentado através de uma análise de O Pequeno Príncipe.

Para uma melhor compreensão deste texto, sugiro primeiro a leitura da seção “A relação entre O Pequeno Príncipe e a psicologia analítica“, que introduz a primeira parte desta série de textos que redigi a respeito da psicologia analítica e sua relação com a arte e a obra O Pequeno Príncipe.

Marie-Louise Von Franz (1915-1998) é uma referência importante na psicologia analítica junguiana, pois trabalhou com o próprio Jung, muito embora sua formação não tenha sido em psicologia. Doutora em línguas clássicas, escreveu diversos livros sobre o tema “conto de fadas” na psicologia analítica, dentre os quais destacam-se os títulos “A interpretação dos contos de fadas” e “A sombra e o mal nos contos de fadas”, ambos publicados no Brasil (SOCIEDADE BRASILEIRA DE PSICLOGIA ANALÍTICA, 2015).

Por conta de seu percurso acadêmico dedicado à literatura no campo da psicologia, escolhemos um de seus textos para dialogar com a nossa pesquisa. O texto diz respeito do arquétipo do puer aeternus, e alertamos o leitor que em alguns momentos Von Franz se utilizará da palavra criança como sinônimo de puer aeternus.

É interessante como a autora associa o próprio escritor Saint-Exupéry ao arquétipo do jovem eterno, entretanto Von Franz mostra como pode ser dolorosa uma identificação excessiva com o arquétipo do puer. Contudo não queremos destacar os mesmos aspectos, apesar de apresenta-los, pois queremos elencar o que há de puer no personagem Pequeno Príncipe e como isso pode ser positivo, pois acreditamos que tanto o puer como as características pueris do Pequeno Príncipe possam colaborar de forma saudável, tanto com o sujeito possuidor dessas características, como do leitor da obra de Saint-Exupéry.

A origem da expressão puer aeternus remonta à Antiguidade Clássica. Os gregos usavam essa expressão para designar um de seus deuses, mais especificamente, o deus-criança Iaco. Mais tarde, esse mesmo deus teria sido nomeado como Dionísio e Eros. Sendo um jovem deus, nascido na espreita da noite, Iaco era considerado um redentor: deus da vida, da morte e da ressureição. Não obstante, a expressão puer aeternus que o designa significa “eterna juventude”. No mundo contemporâneo, essa expressão passou a ser usada para se referir a um rapaz com evidente complexo materno, que se comporta de maneira tipicamente adolescente (VON FRANZ, 1999).

De acordo com Von Franz (1999), o homem que se identifica com o arquétipo do puer aeternus permanece por mais tempo com características esperadas para um jovem com idade entre 17 e 18 anos. Na maioria dos casos, o sujeito está atrelado a “uma excessiva dependência da mãe” (VON FRANZ, 1999, p. 130). Segundo Von Franz (1999), Jung identifica duas perturbações muito frequentes nos homens com complexo materno: a homossexualidade e o donjuanismo.

O homem com donjuanismo caracteriza-se por estar sempre à procura de uma parceira idealizada e perfeita, sendo esta uma mulher que suprirá suas necessidades e isenta de qualquer imperfeição. Ele não quer uma esposa, mas uma deusa-mãe. Ao relacionar-se sexualmente com ela, perceberá que é uma mulher comum e ficará desapontado. Com isso, o homem afasta-se da mulher, fincando apto para projetar novamente a mesma imagem em outra mulher retroalimentando o ciclo indefinidamente, pois “anseia eternamente pela mulher maternal” (VON FRANZ, 1999, p. 131).

Esses rapazes sentem uma grande dificuldade na interação social, tornando-se arrogantes com as demais pessoas devido a um complexo de inferioridade ou a falsos sentimentos de superioridade (VON FRANZ, 1999). Segundo Von Franz (1999), os homens nessa situação sentem grande dificuldade na vida profissional, pois nunca estão satisfeitos com o cargo que exercem ou com a posição que ocupam. Sempre existirá um “mas” em suas vidas, seja esta profissional ou amorosa, que os impedirá de assumir qualquer compromisso.

Esse comportamento, de acordo com Von Franz, faz com que o sujeito viva uma forma de neurose, chamada por H. G. Baynes de “vida provisória” (VON FRANZ, 1999, p. 131), na qual se vive uma fantasia de que a mulher ainda não é a desejada e a sensação “de que no futuro a coisa real irá acontecer” (VON FRANZ, 1999, p. 131). Se esses sentimentos são mantidos por muito tempo, significa que existe uma “recusa interior constante em comprometer-se com o momento” (VON FRANZ, 1999, p. 131). Essa neurose é acompanhada do complexo do salvador, isto é, o pensamento secreto de que um dia será capaz de salvar o mundo por alguma invenção ou ação, o que pode evoluir para uma megalomania patológica típica (VON FRANZ, 1999).

Levando em consideração as características do puer aeternus apresentadas por Von Franz, é possível fazer sua associação com o personagem Pequeno Príncipe a partir de uma interpretação psicológica da obra. No conto, o planeta do Pequeno Príncipe abriga também uma rosa, que é cuidada com bastante esmero pelo personagem. O conto relata em diversas passagens o relacionamento do principezinho com sua rosa, que, num prisma psicológico, pode ser considerada como símbolo da mulher. Em seu primeiro encontro com a flor, se assim podemos dizer, o garoto fica encantado por sua beleza, o que lhe cria a expectativa de um relacionamento perfeito, idealizado. No entanto, a partir do momento em que o Pequeno Príncipe percebe as imperfeições da rosa, ele fica desapontado e, em consequência, decide fugir de seu planeta. A fuga pode ser entendida com um subterfúgio para não enfrentar a situação de forma madura, ou seja, assumir que a rosa ideal não existe, e a partir dai iniciar um processo de aceitação da rosa e de si mesmo. Aprendendo mutuamente a lidar com as imperfeições daquela relação.

Podemos observar o momento da frustração do garoto no trecho em que a rosa lhe roga por cuidados: “Tu poderias cuidar de mim… E o principezinho, atordoado, tendo ido buscar um regador com água fresca, molhou a flor. Assim ela logo começou a atormentá-lo com sua doentia vaidade” (SAINT-EXUPÉRY, 2009, p. 29, 30). Na visão do Pequeno Príncipe, a rosa é bela e perfuma todo seu planeta, “mas” é vaidosa, e é justamente esse “mas” que o faz rejeitar qualquer compromisso com ela.

Von Franz (1999) declara, ainda, que o puer aeternus possui “fascinação por esportes perigosos, em especial a aviação e o alpinismo” (VON FRANZ, 1999, p. 131). Neste caso, o interesse do sujeito trafega no campo simbólico, uma vez que tem a necessidade de estar o mais alto quanto puder para ficar longe das obrigações que o cercam na vida cotidiana, pois estar em contato com a terra poderia significar no campo simbólico a necessidade de ficar com os pés no chão e o reconhecimento dos limites. Segundo a autora, os sujeitos em que tal complexo é muito acentuado costumam morrer jovens, em acidentes aéreos ou alpinismo.

Neste ponto, é possível observarmos a obra O Pequeno Príncipe pela perspectiva visionária, isto é, no campo simbólico e na obscuridade do inconsciente. É interessante notar que tanto o Pequeno Príncipe quanto o aviador possuem a habilidade de voar. Sobre o aviador apenas sabemos que houve uma pane em sua aeronave; já sobre o menino cremos que este tenha se aproveitado de uma migração de pássaros selvagens para fugir voando de seu planeta.

A história nos intriga por não nos desvelar com clareza como o menino chegou, de fato, à Terra.  O conto relata a passagem do menino por outros planetas antes de sua aparição na Terra. Teria ele encontrado outros pássaros selvagens no decurso de sua passagem pelos outros planetas? Ou os pássaros que o tiraram originalmente de seu planeta foram os mesmos que o trouxe até a Terra? O que sabemos objetivamente é que ambos, aviador e menino, cruzam seus caminhos no vazio e árido deserto do Saara, perdidos e na iminência de morte por desidratação e pela presença de uma serpente, que pode matar por simples prazer.

É interessante notar que, no contexto da história, o estar com os pés em terra firme associa-se com a ideia de morte, ao passo que voar sugere a noção de estar seguro dos perigos e das perversões terrenas. Para aquele que se identifica com o puer voar, se entregar às fantasias torna-se uma necessidade vital e não somente uma forma de evitar obrigações. Isso é algo que transcende nossa razão, pois, apesar de Von Franz (1999) alertar-nos para os perigos daqueles que se identificam demasiadamente com o puer, essa identificação nos parece uma condição essencial de vida desses sujeitos, mas não exclusivo deles, pois estar suspenso na fantasia é algo bom e saudável a todo ser humano. E isto revela que fantasiar é mais do que uma simples perturbação com a realidade, mas também uma atividade vital da psique.

Para Von Franz, o problema em lidar com o puer é entender se sua manifestação é “uma sombra infantil que deve ser eliminada e reprimida ou se é um elemento criativo […] rumo a uma futura possibilidade de vida” (VON FRANZ, 1999, p. 134). Segundo a autora, a criança sempre aparece atrás de nós e à nossa frente. A criança atrás traz uma conotação negativa: ela é a sombra infantil que abandonamos e que sempre tenta nos puxar para uma vida “infantil e dependente”, tendo sempre como saída a “fuga diante dos problemas, das responsabilidades e da vida” (VON FRANZ, 1999, p. 134). A criança à nossa frente, por sua vez, é interpretada com sentido positivo – “significa renovação, a possibilidade da eterna juventude, da espontaneidade e de novas possibilidades: a vida fluindo rumo a um futuro criativo” (VON FRANZ, 1999, p. 134).

Para Von Franz (1999), aquele que se identifica com o puer, em geral, acaba por não viver nada concretamente. Sempre perdido em suas fantasias, vê a vida passar à sua frente, pois prefere a fantasia à realidade, ou, em outras palavras, não aceita a realidade de modo algum. As pessoas à sua volta percebem seu potencial, porém não existe ação por sua parte. Aos poucos, essa “apatia” e/ou “irresponsabilidade” vão se tornando sua personalidade real.

Em contrapartida, Von Franz (1999) afirma que a criança também é símbolo da vida, da criatividade e do futuro. Essa criança pode de alguma forma no ajudar na vida adulta, ajuda que só ocorre se entrarmos em contato com ela. E é por esse caráter positivo do puer que acreditamos que o personagem Pequeno Príncipe desperta no leitor a curiosidade de entrar em contato com a criança e descobrir toda potencialidade desse encontro. E, mesmo que o leitor não saiba como fazê-lo, o conto ensina que esse encontro não é possível pela razão, mas pelo coração, pois não é uma experiência psicológica, mas, sim, visionária.

Referência

GUERRA, Rafael Henrique e UEHARA, Silvia Kazumi. O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry, sob a ótica da psicologia analítica junguiana. São Paulo: Centro Universitário São Camilo, 2015. 80 p.