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O Pequeno Príncipe e a psicologia analítica – Parte 4: O Pequeno Príncipe e Saint-Exupéry

Este texto faz parte de uma pesquisa realizada por mim e minha amiga, Kazumi Uehara, e esta é a parte 4 de 4. O texto que discutiremos a seguir é de autoria de Helen M. Luke. A autora traça um paralelo entre a história do Pequeno Príncipe e a de seu autor, Saint-Exupéry. Para Luke (1999), o menino é a criança do próprio autor da história, e não do aviador. É no percurso da história do Pequeno Príncipe que a autora identifica as características do puer no garoto que estão ligadas à vida pessoal de Saint-Exupéry. Ou seja, a autora tece uma visão psicológica da literatura onde somos conduzidos a vivenciar os sentimentos da alma humana.

Para uma melhor compreensão deste texto, sugiro primeiro a leitura da seção “A relação entre O Pequeno Príncipe e a psicologia analítica“, que introduz a primeira parte desta série de textos que redigi a respeito da psicologia analítica e sua relação com a arte e a obra O Pequeno Príncipe.

Helen M. Luke nasceu na Inglaterra. Por volta dos 50 anos de idade dedicou-se aos estudos no Instituto Junguiano em Zurique, na Suíça. Posteriormente, mudou-se para Los Angeles, nos Estados Unidos, onde se estabeleceu na prática analítica junto a Robert A. Johnson, renomado analista junguiano. Em 1962, fundou a “Apple Farm Community” (Comunidade Fazenda das Maçãs) em Três Rios, Michigan. Essa fazenda tinha como objetivo ser “um centro para pessoas em busca de apropriar-se do poder transformador dos símbolos em suas vidas”. Escreveu, ainda, livros a respeito dos símbolos, dos sonhos e da literatura (APPLE FARM COMMUNITY, 2015).

Segundo Luke (1999), no século XX a literatura ganhou dois enredos muito famosos a respeito do “eterno menino”, que, embora muito diferentes, as histórias possuem o mesmo tema: o do menino que se recusa a crescer.

Um deles é a história de Peter Pan e Wendy, do escocês James Matthew Berrie, escrito em 1911. Esse conto narra a história de um menino, quase adolescente, com a personalidade egocêntrica de uma criança pequena. Sua preocupação está mais em ser amado e obedecido do que em cuidar e liderar seu pequeno bando. O jovem Peter Pan possui, ou acredita possuir, poderes mágicos, como voar, por exemplo.  O simples fato de Peter acreditar em seus poderes é que o faz possuí-los. Ele habita sua fantasia em uma ilha chamada Terra do Nunca, onde é tido como rei e senhor. Como brincadeira para ele é coisa séria, as crianças que cometem o erro de crescer – e consequentemente não podem mais brincar – são punidas (CORSO e CORSO, 2007).

O outro personagem a qual Luke se refere é o Pequeno Príncipe. Segundo a autora, a história fala a respeito da criança que existe dentro de nós e a perda de sentido do mundo adulto (LUKE, 1999). Para Luke, Sant-Exupéry faz parte do grupo de pessoas que internamente conseguem viver através de suas fantasias, pois conhecem a sabedoria da inocência da criança. Todavia, essas pessoas entram em conflito com a realidade externa. Para Luke, esses indivíduos sofrem tanto com essa situação que podem chegar ao suicídio, às vezes “concreto, físico, consciente ou inconsciente” (LUKE, 1999, p. 147).

 O Pequeno Príncipe nos instiga, pois vive solitário em um planeta distante “observando tristemente a beleza dos pores-do-sol” (LUKE, 1999, p. 148). Para Luke (1999) esse fato é uma contradição da história, pois quando se fala de criança está se falando de aurora, e não em decadência, seja no sentido da criança humana ou da criança arquetípica no inconsciente do adulto.

 Apesar de Luke (1999) olhar para esse fenômeno desacreditada da presença de um símbolo positivo, para o Pequeno Príncipe o pôr-do-sol tem um propósito claro. Segundo o garoto: “Quando a gente está muito triste, gosta de admirar o pôr do sol” (SAINT-EXUPÉRY, 2009, p. 25). Pode ser que para o menino essa experiência seja algo bom, e não necessariamente algo ruim, como sugere Luke (1999), mas nesse caso tanto a opinião da autora, que julgamos ser psicológica, como qualquer uma que hesitássemos elaborar seria insignificante, pois as interpretações possíveis estariam enraizadas no inconsciente coletivo, através de uma perspectiva visionária, onde o arquétipo age livremente dando ao sujeito as mais diferentes experiências arquetípicas, nas quais não haveria contradição ou a contradição não seria problemática, permitindo a criança observar tristemente a beleza do pôr-do-sol.

Na visão da autora, a rosa do Pequeno Príncipe é quem mostra a ele que havia algo errado em sua vida afetiva, pois apesar de linda “mostra-se muito fútil e absolutamente não confiável; por isso o menino a rejeita e dá início à jornada que leva à Terra” (LUKE, 1999, p. 148). No entanto, visitar outros planetas não o fez se sentir melhor do que em seu próprio planeta com sua rosa vaidosa, pois se deparou com pessoas obcecadas pelo poder, riqueza, conhecimento e prazer (LUKE, 1999).

Uma vez estando na Terra, o Pequeno Príncipe parte em busca de pessoas e, aos poucos, vai se tornando cada vez mais infeliz. E, ao se deparar com um jardim repleto de rosas como a sua, se “lança ao chão e chora” (LUKE, 1999, p. 149), pois entende que ela não é única, aliás, não passa de uma rosa como outra qualquer. E é nesse momento que a raposa entra em cena (LUKE, 1999).

A raposa, símbolo da astúcia e da sabedoria, ensina o menino sobre a beleza de uma amizade verdadeira e lhe mostra o sentido de singularidade. Ela o induz à noção de que, para manter uma amizade, é preciso cativar o outro, ou seja, “criar laços – em outras palavras, ter relacionamento e responsabilidade” (LUKE, 1999, p. 149). A raposa mostra ao principezinho que o que faz de sua rosa um ser único é o tempo que gastou com ela, já que para “criar laço” é preciso que se gaste tempo. Foi justamente dessa forma que o campo de trigo tomou outro significado para raposa, pois este sempre se lembraria de que a cor do trigo é como a dos cabelos dourados do menino (LUKE, 1999).

Luke, porém, afirma que, mesmo com o ensinamento da raposa, de resignificar as coisas tal qual ela mesma fez com o trigo, o Pequeno Príncipe “não captou o elemento essencial da mensagem” (LUKE, 199, p. 150). Isto porque, para o menino é muito difícil dar significado às coisas e não entrar em conflito com a realidade. Existe pesar e arrogância na fala do garoto após o encontro com a raposa. Parece haver uma cobrança excessiva de si mesmo para cuidar de sua rosa, e ao, mesmo tempo, ele não demonstra convicção em querer vê-la novamente (LUKE, 1999).

Segundo Luke, por conta desses conflitos o menino decide partir em busca da serpente para morrer. Aqui, o garoto busca não a morte da aceitação, “mas a morte que é recusa da vida e da responsabilidade por sua rosa” (LUKE, 1999, p. 150). Mas, antes que isso ocorra, ele terá um encontro com o aviador.

Ao encontrar o aviador pela primeira vez, o garoto pede-lhe um desenho de um carneiro para leva-lo para seu planeta. O aviador, mais preocupado em consertar seu avião a dar atenção ao garoto, diz não saber desenhar, mas o menino insiste: “Não tem importância. Desenhe-me um carneiro” (SAINT-EXUPÉRY, 2009, p. 10). Para sua surpresa, o menino é bastante exigente e rejeita todos os seus desenhos até que o homem lhe desenha uma caixa na qual o carneiro que deseja se encontre dentro dela (LUKE, 1999).

Para Luke (1999)

Isso seria uma delícia para um menininho, mas não para o homem identificado com a criança. Sem dúvida, trata-se, mais uma vez, de um perigoso mal-entendido quanto às palavras da raposa: “O essencial é invisível aos olhos”, o que, certamente, não significa que você possa converter um carneiro de verdade numa imagem particular daquilo que você gostaria que ele fosse […]” (LUKE, 1999, p. 151).  

A autora afirma que esse seria o grande mal entendido do Pequeno Príncipe, que, por meio da imaginação, distorce a verdade ao invés de dar um significado objetivo às coisas (LUKE, 1999). Para Luke, essa história é análoga à do próprio Saint-Exupéry, um homem incrível, mas que nunca conseguiu separar sua identificação com a eterna criança, vivendo intensamente em suas fantasias. Segundo a autora, Exupéry tinha “um profundo e real misticismo, um grande apetite pelos prazeres dos sentidos e uma total irresponsabilidade perante a vida diária” (LUKE, 1999, p. 152).

É interessante que alguns psicólogos tenham dito que muitas das pessoas identificadas com o puer aeternus sejam pilotos de avião, pois Exupéry “raramente era feliz, exceto quando voava” (LUKE,1999, p. 152). Era como se ele estivesse sempre em busca de seu Pequeno Príncipe, solitário e infeliz em seu planeta. Apesar de ser um ótimo piloto, por diversas vezes voava literalmente em seus pensamentos; saía de sua rota original e só voltava diante de um grande perigo; esquecia-se até do trem de pouso no momento de aterrissar, entre outras situações (LUKE, 1999).

De acordo com Luke, seu fim foi como o do Pequeno Príncipe: sumiu no ar, em algum lugar da França, em sua última missão na guerra, sem deixar nenhum sinal. “Simplesmente desapareceu” ou “morreu violentamente num acidente […], pois tinha regressado à sua cobra, recusando-se a abandonar seu paraíso infantil e a expor sua rosa ao mundo” (LUKE, 1999, p. 153).

Em relação à vida amorosa de Exupéry, podemos considerar que foi outro desastre. De acordo com Luke (1999, p. 152), seu casamento com Consuelo foi marcado por “discussões violentas, separações e reconciliações igualmente passionais”. Separado de sua esposa, escrevia emotivo sobre sua responsabilidade por ela, apesar de não conseguir viver tal responsabilidade. Este contexto da vida do autor nos remete imediatamente ao momento em que o Pequeno Príncipe fala sobre sua rosa para as rosas do canteiro. Há um paralelo do modo com que Exupéry falava emotivo de sua esposa quando não estava com ela com a conversa do Pequeno Príncipe com as rosas do canteiro a respeito da rosa que abandonara em seu planeta: “ela sozinha é, porém, mais importante que todas vós, pois foi ela que eu reguei. Foi ela que pus sob a redoma. Foi ela que abriguei com o pára-vento” […] (SAINT-EXUPÉRY, 2009, p. 70).

 Para Luke (1999), Exupéry rejeitou a sabedoria da raposa e abraçou a constante ameaça do “carneiro”, que arquetipicamente pode ser tido tanto como a “inocência como a estupidez coletiva” (LUKE, 1999, p. 152). De acordo com a autora, o mal-entendido fez com que ele se afastasse ainda mais de si mesmo e vivesse preso em suas fantasias, não conseguindo crescer e “chegar ao verdadeiro encontro de opostos no qual a criança interior permanece intensamente viva […] vinculada à realidade externa” (LUKE, 1999, p. 152).

Segundo Luke, Saint-Exupéry é o próprio Pequeno Príncipe, que veio à Terra, mas decidiu voltar para seu planeta por não conseguir lidar com as pessoas que encontrou por aqui, e, por isso, sente desprezo e distanciamento. O risco da morte, que inúmeras vezes o sondou, fosse pilotando seu avião ou dirigindo um carro, foi uma forma de “pôr a psique infantil em risco diante do confronto com as responsabilidades de um homem” (LUKE, 1999, p. 153).  Entretanto, Luke (1999) afirma que raramente as pessoas com personalidade puer aeternus agem dessa forma extrema.

Devemos estar atentos às formas com que nos identificamos com a criança interior. Nesse sentido, a obra O Pequeno Príncipe nos auxilia nessa reflexão. Segundo Luke (1999), o ideal é que nos deixemos encontrar com a inocência e insensatez da criança sem deixar de lado a realidade. Assim, manteremos a criatividade com os pés no chão.

Para Jung, a experiência com a criança é indescritível, pois ela é divinamente poderosa (LUKE, 1999). Entendemos que para Jung a experiência com o puer não deve seguir os padrões psicológicos descritos com tamanha negatividade e radicalidade por Luke (1999), já que estes nos falam de sentimentos e coisas que já temos conhecimento. Ao invés disso, devemos nos aventurar no sentido visionário, numa experiência profunda com os arquétipos e com todo simbolismo da criança.

Assim finalizamos esta discussão com um questionamento pertinente a este trabalho. Se levarmos em consideração que Antoine de Saint-Exupéry era realmente um homem identificado com o arquétipo do puer aeternus como se refere Luke (1999), podemos imaginar O Pequeno Príncipe escrito da mesma forma e sendo mundialmente reconhecido se fosse escrito por uma personalidade mais equilibrada? A resposta exata nós não temos, mas podemos supor que talvez não houvessem tantas pessoas identificadas com a obra se ela não proporcionasse um encontro com a criança. Talvez não houvessem tantas pessoas identificadas com a obra se todos entrassem em contato com ela através da perspectiva psicológica.

Referência

GUERRA, Rafael Henrique e UEHARA, Silvia Kazumi. O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry, sob a ótica da psicologia analítica junguiana. São Paulo: Centro Universitário São Camilo, 2015. 80 p.