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  Lado a Lado pela Vida

Automedicação e os riscos para saúde

Dados gerais

O Brasil é um dos maiores consumidores de medicamentos no mundo. São aproximadamente 480 empresas que atuam diretamente com a produção, distribuição e venda de medicamentos. E estima-se que esse mercado fatura cerca de 22,1 bilhões de dólares por ano.

Conforme recomendação da OMS (Organização Mundial de Saúde) é necessário que haja uma farmácia ou drogaria para cada 10 mil habitantes. Entretanto, esse número, no Brasil, está acima da média esperada. São cerca de 3,3 farmácias para cada 10 mil habitante, o que facilita o acesso à população aos fármacos e aumentam as possibilidades de uso irracional de remédios.

De acordo com dados da OMS, mais de 50% dos medicamentos são prescritos de forma desnecessária, já que em muitos casos eles seriam dispensáveis. Além do mais, existe uma crença popular de que “médico bom é aquele que receita remédios”. Assim, mesmo nos casos onde o médico não prescreveria nenhum medicamento, por não haver necessidade, o paciente sugere que ele o faça, de modo a sair mais satisfeito do consultório e poder amenizar qualquer tipo de mal-estar físico e/ou psicológico.

Outro dado importante, segundo a OMS, é que metade dos pacientes utilizam medicamentos erroneamente. Um dos principais fatores para o uso inadequado é a prática da automedicação.

Os números referentes aos males causados pela automedicação no Brasil são impressionantes. “Aproximadamente um terço das internações ocorridas no País tem como origem o uso incorreto de medicamentos. No ano de 2011, os medicamentos corresponderam a 29,5% dos casos de intoxicações registrados no Brasil e a 16,9% dos casos de óbito por intoxicações”.

Por outro lado, um dos fatores da crescente prática da automedicação é a falta de acesso e mal atendimento nos serviços da rede pública de saúde: as longas filas de espera nos hospitais, a falta de médicos para os atendimentos, falta de estrutura básica, entre outros fatores correlacionados. Isto é, vivemos uma situação bastante precária e delicada no atendimento básico à saúde. Entretanto, isso não pode referendar a prática da automedicação, pois os efeitos colaterais podem ser severos para o sujeito, complicando ainda mais seu quadro clínico e levando-o até mesmo a óbito dependendo da dosagem e do medicamento ingerido irresponsavelmente.

É importante que se exponha que a automedicação não é um problema enfrentado apenas no Brasil, ou mesmo, que seja uma prática encontrada majoritariamente na população de baixa renda, que depende do atendimento público. Como evidência disso, podemos observar países desenvolvidos, como a Austrália e os Estados Unidos, onde é possível comprar medicamentos até mesmo em supermercados. Isto demonstra a fragilidade do sistema de saúde desses países, além da facilidade, ainda maior que a encontrada em nosso país, de acesso a medicamentos.

Em relação a isso, no Brasil, estamos à frente desses países, pois após a Resolução  RDC nº 44/09, os únicos locais autorizados a vender medicamentos são farmácias e drogarias.

Além disso, esses estabelecimentos são obrigados, em todo território nacional, a ter a assistência de um farmacêutico responsável técnico, ou seu substituto, durante todo seu horário de funcionamento. Isto porque, tais profissionais são responsáveis pelo uso racional de medicamentos e, portanto, têm a função de zelar pela saúde pública.

Entretanto, apenas a regularização da venda dos medicamentos não é o suficiente para solucionar um problema tão complexo quanto a automedicação. Pois “o fato de se poder adquirir um medicamento sem prescrição não permite o indivíduo fazer uso indevido do mesmo, isto é, usá-lo por indicação própria, na dose que lhe convém e na hora que achar conveniente”.

Prova disso é a campanha que o Governo tem feito para alertar a população a respeito dos riscos da automedicação em casos de  dengue, chikungunya e zika. Não existe ainda nenhuma medicação específica para combater essas doenças e a pessoa que decidir tomar algum medicamento para aliviar as dores causadas pela enfermidade deve estar muito atenta, pois remédios compostos de ácido acetilsalicílico podem desencadear hemorragias, ou seja, agravar ainda mais sua situação.

Psicofármacos

No Brasil, uma parcela relevante dos medicamentos receitados é do tipo psicofármaco. Aproximadamente 13% dos medicamentos consumidos no país são benzodiazepínicos, antidepressivos, neurolépticos, anticonvulsivantes ou estimulantes do sistema nervoso central.

Os psicofármacos, tal qual os conhecemos hoje, foram desenvolvidos na década de 1950 a fim de colaborar com os tratamentos psiquiátricos. Boa parte dos transtornos daquela época foram causados pela Segunda Guerra Mundial (1939–1945).

Assim, os transtornos mentais passaram a ser vistos de forma diferente pela medicina. A psiquiatria, que até então assistia exclusivamente as pessoas excluídas da sociedade por serem loucas, passou a cuidar de qualquer indivíduo que se queixasse de algum tipo de sofrimento psíquico. Contudo, não demorou para que o tratamento abrangesse também as pessoas que gozavam de boa saúde mental, ou seja, pessoas que não necessitavam de medicamentos para aliviar seu mal-estar emocional por não se tratar de um caso mais grave.

“Atualmente, qualquer sinal de sofrimento psíquico pode ser rotulado como patologia cujo tratamento será a administração de psicofármacos. Essa tendência tem-se ampliado de tal modo que se pode falar da ocorrência de uma generalizada ‘medicalização do social’. Sob esse prisma, os psicofármacos instituíram-se como o recurso terapêutico mais utilizado para tratar qualquer mal-estar das pessoas, em que se destaca a tristeza, o desamparo, a solidão, a inquietude, o receio, a insegurança, ou até mesmo a ausência de felicidade”.

Isto significa que aquilo que poderia ser tratado como simples emoção humana está tomando grandes proporções, ganhando status de patologia, cuja única esperança de cura é a medicação.

Vivemos em uma sociedade imediatista que busca o prazer e o bem-estar acima de tudo, e que está disposta a pagar qualquer preço para garantir tais benefícios da forma mais rápida possível.

Dessa maneira, podemos tomar como exemplo indivíduos que sofrem de ansiedade ou depressão. A medicação pode até agir rapidamente alterando o estado emocional. Entretanto, os verdadeiros motivos que causam a ansiedade e a depressão ficarão mascarados pelo efeito da medicação.

O mesmo pode ocorrer nos casos de pessoas que tomam excessivamente anabolizantes para terem corpos definidos e musculosos no menor tempo possível. Tais pessoas o fazem sem pensar no mal que estão causando ao seu próprio corpo, ao desequilibrar hormônios e provocar danos físicos e emocionais irreparáveis, dependendo do caso. Todavia, podemos supor que indivíduos que se sujeitam a este tipo de hábito, muitas vezes, estão em busca de uma forma de amenizar e encobrir problemas relacionados à autoestima, que poderiam ser trabalhados em uma psicoterapia.

Automedicação de Psicofármacos

É comum a prática da automedicação de psicofármacos em momentos de crise emocional. Principalmente quando existe alguém próximo (um parente, um amigo, vizinho, esposa, marido, namorado ou namorada), que já faz uso de algum psicofármaco, para dar uma ajuda. A solução para o sofrimento psíquico aparece quase como mágica, em forma de comprimido, oferecido ou pedido pelo indivíduo em crise.

Um dos motivos para que isso aconteça é que grande parte desses medicamentos são vendidos somente sob prescrição médica. Portanto, o acesso é restrito, e para o uso sem autorização médica é preciso um facilitador.

No entanto, a automedicação com psicofármacos pode ocorrer mesmo nos casos onde o sujeito possui a prescrição e a autorização médica. Pode acontecer que, em um dia de crise aguda, a pessoa decida, por conta própria, aumentar a dose da medicação. Assim, facilmente esquece-se que todo fármaco possui efeitos esperados e efeitos colaterais, e que o suo abusivo de substâncias químicas podem gerar complicações à sua própria saúde.

É importante lembrar que não existe um único medicamento que haja 100% exclusivamente para combater um determinado sintoma. Por isso muitas vezes os médicos precisam prescrever mais de um psicofármaco, pois um complementa o outro para um tratamento eficaz. Evidentemente, somam-se os efeitos colaterais das duas substâncias químicas no organismo.

Dada as dificuldades de atendimentos enfrentadas diariamente nos equipamentos de saúde, como, por exemplo, a falta de médicos e a lotação no sistema de saúde pública ou mesmo a demora em conseguir agendar uma consulta médica pelo plano de saúde,   esperar por uma avaliação médica antes de iniciar uma medicação não é tarefa fácil, mas é a mais segura diante dessa situação. Como cada organismo reage de uma forma aos medicamentos para tratamento psiquiátrico, existem grandes riscos de intoxicação ou de provocar outras complicações ao quadro clínico do indivíduo quando se pratica a automedicação.

Nesse momento é melhor não colocar em risco a própria saúde para aliviar um mal-estar psíquico. Em muitos casos, a psicoterapia poderia se mostrar tão eficiente quanto a medicação, além de tratar a causa do problema e não apenas os sintomas. Ressalte-se que determinados casos demandam sim de medicação, até mesmo para que a psicoterapia possa surtir efeito. Mas isso não será decido única e exclusivamente pelo sujeito.

Ansiolíticos e Antidepressivos

A partir de agora vou elencar algumas das principais classes de psicofármacos para o tratamento da Ansiedade e Depressão, bem como sua ação e seus efeitos colaterais para que você possa entender um pouco mais sobre os riscos de tomar uma medicação sem acompanhamento médico.

O texto a seguir foi redigido a partir da publicação de Marcolan e Urasaki (1998), que se encontra nas referências, no final deste artigo.

Ansiolíticos (Benzodiazepínico)

Os ansiolíticos são fármacos que aliviam a ansiedade ou a tensão emocional simples. É natural que, num primeiro momento, o indivíduo faça uso abusivo, para aliviar os sintomas, e se torne dependente da droga. Pois esses medicamentos causam dependência física e emocional.

Em caso de interrupção abrupta pode ocorrer crises de abstinência. Com a retirada de um benzodiazepínico podem aparecer os seguintes sintomas: ansiedade, insônia, agitação, irritabilidade, tensão muscular, parestesias, tremor, náuseas, cansaço, depressão, ataxia, tonteira e raramente: convulsões, confusão, alucinações e delírios.

O uso concomitante do remédio com bebida alcoólica pode potencializar os efeitos indesejáveis de ambas as drogas (álcool e ansiolítico), colocando o paciente em risco devido à depressão do Sistema Nervoso Central.

 Antidepressivos

São indicados para reduzir a intensidade dos sintomas da depressão. Existem 4 tipos de antidepressivos. E por isso é preciso que um médico avalie qual o melhor medicamento para cada sujeito.

a) Antidepressivos Tricíclicos

Os efeitos terapêuticos dessa medicação podem iniciar entre a segunda e a terceira semana de uso. Os efeitos colaterais aparecem mais rapidamente, isto é, após a primeira semana.

Seu efeito no organismo é prolongado, pois leva mais tempo para ser excretado. Por isso, em alguns casos, mesmo após dias do término do tratamento, o sujeito ainda pode sentir os efeitos da medicação. Se utilizado abusivamente pode provocar alucinações, delírios e os efeitos tóxicos capazes de levar o sujeito à morte.

Alguns dos efeitos colaterais são: constipação intestinal, visão embaçada, taquicardia, hipotensão arterial, sedação, tremor, insônia, rubor, convulsões, retenção urinária, arritmias cardíacas, sudorese, diminuição da libido e retardo do orgasmo, ansiedade, entre outros.

b) Inibidores da monoaminoxidase (IMAO)

A inibição da enzima MAO por si só já torna estas drogas perigosas, pois a MAO intestinal e hepática (fígado) inativam a tiramina, cuja principal função é controlar a pressão sanguínea.

Portanto, o uso desse tipo de medicamento associado a alimentos ricos em tiramina (tais como picles, vinho, cerveja, queijo, arenque, fígado de galinha, figo, chocolate, carnes sazonadas e extratos de carne, iogurte não-pasteurizado, feijão verde, cogumelo, chucrute) podem causar uma crise hipertensiva com riscos de hemorragia intracraniana e consequentemente óbito.

O mesmo pode ocorrer quando do uso concomitante destas drogas com alimentos contendo cafeína, com descongestionantes nasais ou substâncias simpaticomiméticas e com antidepressivos tricíclicos.

Alguns dos efeitos adversos ao uso do fármaco são: constipação intestinal, visão turva, agitação, náuseas, cefaléia, tremor, frio, sonolência, rubor, estados confusionais, impotência e incapacidade de ejacular.

c) Antidepressivos Diversos (Atípicos)

Para o tratamento com algum desses antidepressivos não é recomendado a ingestão de álcool. Podem surgir reações medicamentosas alérgicas, como, por exemplo, exantema e urticária. Caso isso ocorra, o tratamento deve ser interrompido e realizado imediatamente uma avaliação médica.

Outros efeitos colaterais são ansiedade, insônia, hipomania, anorexia, náusea, vômito, cefaléia, convulsões, sonolência, diarréia, tontura,  febre e calafrios, dores muscular, problemas respiratórios.

Obs: o uso de qualquer antidepressivo confere ao sujeito riscos de acidente, pois podem causar danos cognitivos.

Carbonato de Lítio

O lítio é uma substância encontrada em pouca quantidade no corpo humano, e não desempenha nenhuma função específica. No entanto, descobriu-se em meados de 1949 que pode ser utilizado para o tratamento de doenças relacionadas ao humor.

Alguns do efeitos adversos são: tremores de mão, diarréia e náuseas,  sonolência, tonturas leves, fraqueza muscular, ganho de peso, piora da acne ou psoríase, aumento de leucócitos (células de defesa).

Por ser uma droga eliminada através da urina, é essencial realizar exames renais antes de iniciar o tratamento com essa substância. Consequentemente, caso o paciente precise tomar qualquer outro tipo de medicação (especial atenção aos diuréticos) durante o mesmo período, ele deve comunicar o seu médico.

Bibliografia

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