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  Universal Pictures

O que podemos aprender com o filme O QUARTO DE JACK (ROOM, 2015)

O filme O QUARTO DE JACK (ROOM, 2015), que estreou em fevereiro de 2016 no Brasil, é uma história ficcional baseada no livro QUARTO (ROOM, 2010), da escritora irlandesa Emma Donoghue. A trama conta a história de Joy (Brie Larson), uma jovem que foi sequestrada e é mantida em cativeiro há anos em um quarto. Joy, que é molestada periodicamente por seu sequestrador, acaba tendo um filho com ele, Jack (Jacob Tremblay), que nasceu no cativeiro.

O menino de 5 anos não conhece outra realidade a não ser a do quarto. Como seu mundo é muito restrito e confuso, ele se relaciona com os móveis e outros objetos presentes no quarto como se estes fossem pessoas, chegando a manter diálogos do tipo “Bom dia, cadeira número 1”, “Bom dia, cadeira número 2”, e assim por diante. Sua Mãe (com M maiúsculo, pois para ele este é o nome dela) faz de tudo para que o menino não sofra com a vida desumana que os dois levam encarcerados naquele minúsculo espaço. Para isso, ela cria para ele a fantasia de que o mundo e tudo que existe se resume ao pequeno quarto, ocultando-lhe a ideia de que estão em um cativeiro. Logo, para Jack, o Quarto (com Q maiúsculo) era todo o mundo.

Sem noção de espaço e do que existe fora do quarto, e apesar das adversidades, o pequeno Jack é criado por Joy com todo amor e afeto possíveis. Ela, por sua vez, mesmo em condição de cárcere, não deixa que seu sequestrador, o velho Nick, se aproxime do garoto, colocando-o dentro de um armário todas as vezes que o velho entra no quarto. Com os questionamentos do menino e o desejo de sair do cativeiro, ela começa a bolar um plano de fuga. Mas, antes, ela se depara com a difícil missão de revelar ao menino como o mundo fora dali é de fato. Assim ela precisa desconstruir a ideia do mundo restrito ao Quarto.

O filme é extremamente emocionante e angustiante ao mesmo tempo. Mexe com muitos valores dentro de nós, como justiça, igualdade, LIBERDADE, integridade, respeito, amor, prazer, dentre tantos outros sentimentos genuinamente humanos. Qualquer um com o mínimo de empatia com a protagonista da história sofre ao vê-la naquela situação deplorável.

Embora seja uma produção cinematográfica, é chocante o fato de que situações bastante semelhantes já aconteceram de verdade há poucos anos, como foi o caso da americana Jaycee Lee Dugard em 2009, que foi sequestrada e mantida em cativeiro por 18 anos, tendo tido duas filhas com seu sequestrador durante seu período de cárcere. Outro caso parecido aconteceu na Áustria em 2008, com uma jovem chamada Elisabeth Fritzl, mantida em cativeiro pelo próprio pai por 24 anos, com quem teve 7 filhos.

Além desses casos mais emblemáticos, uma outra jovem foi salva pela polícia na  Suécia no início de 2016. Mantida em cativeiro por 6 dias, foi abusada sexualmente todos os dias por seu sequestrador, o qual tinha a intenção de mantê-la nesse estado por pelo menos 10 anos.

Apesar de a mídia nomear os casos dessa natureza como tragédia, a única palavra que me vem à mente para definir tais situações é monstruosidade. Entretanto, quero tentar mostrar o lado positivo, se assim posso nomear, do que acontece na história e no seu desenrolar.

Em primeiro lugar, podemos correlacionar a história de O QUARTO DE JACK com “O Mito da Caverna” ou “A alegoria da Caverna” do filósofo grego Platão, uma das mais clássicas histórias da Filosofia. Esse mito diz respeito a prisioneiros que, desde seu nascimento, encontram-se acorrentados no interior de uma caverna. Os prisioneiros estão dispostos de tal modo que seu ângulo de visão alcança somente a parede logo à sua frente. A caverna é iluminada por uma fogueira, sendo que as sombras dos objetos que passam em frente às chamas são projetadas diretamente na parede ao alcance da visão dos prisioneiros. Logo, para os prisioneiros, a realidade se trata apenas das figuras de animais, pessoas e objetos que conseguiam ver, sendo que, na verdade não se passavam de uma mera projeção.

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Ilustração do Mito da Caverna (fonte: http://intuicao.com/saber/o-mito-da-caverna-de-platao)

Imaginemos que, certo dia, um dos homens seja forçado a sair da caverna. Certamente, a primeira coisa que ele notaria ao ser desacorrentado e pudesse ter outros ângulos de visão, é que passou a vida toda julgando sombras projetadas e não a realidade tal qual ela é cheia de cores e formas multidimensionais. Pensemos então que esse mesmo homem seja levado para fora da caverna. Imediatamente, por seus olhos nunca terem enxergado a luz do dia, ele sentiria o incômodo da visão ofuscada pela luz do sol pela primeira vez. Dessa forma ele levaria um tempo para que seus olhos se habituassem à nova realidade até que pudesse desfrutar das maravilhas ao seu redor.

A narrativa conta, ainda, que caso esse homem liberto voltasse para contar aos seus colegas cativos as maravilhas do mundo fora da caverna, ele seria tido como louco. Nenhum dos que nunca saíram do cativeiro acreditaria nele. Seria até mesmo ameaçado de morte caso não parasse com suas “maluquices”.

Fazendo uma analogia, o filme, no fundo, espelha essa situação do cárcere na caverna. Jack estava acostumado com sua única realidade (isto é, o quarto) e, por isso, para ele era muito difícil imaginar que havia um mundo cheio de cores, formas e sensações fora dali.

De certa maneira, essa situação também ocorre com a gente: quando estamos muito enraizados em uma determinada crença ou cultura, por mais que nos mostrem outras possibilidades, é muito difícil nos abrirmos a novos pensamentos. Mas, quão maravilhoso não seria se pudéssemos avaliar sempre novas possibilidades, novos desafios, novas oportunidades se nos déssemos essa chance todas as vezes que o medo do novo nos paralisasse?

Entretanto, sair da caverna, ou seja, deixar as velhas mentalidades, pode não ser algo muito agradável. Custa-nos abrir mão de toda uma vida construída com base em julgamentos e ilusões. Mas, ao perceber as possibilidades e um mundo novo ao nosso redor, podemos ter uma vida mais saudável e plena.

Para que isso seja possível, contudo, é preciso determinação e coragem para deixar a caverna e, acima de tudo, sustentar-se fora dela. O filme retrata claramente as dificuldades de adaptação de Jack e sua mãe após sair do quarto. E, por isso, Jack fala por diversas vezes que gostaria de voltar para lá. É comum nós também desejarmos voltar para uma posição mais cômoda, regressar para nossa zona de conforto quando nos vemos em situações que nos exponham demais ou que ainda não aprendemos a lidar.

Muitas vezes por isso é que é fácil, ou de maior comodidade, acharmos que a única solução para os nosso problemas está em uma separação conjugal, em um pedido de demissão, na mudança de cidade ou país, e tantas outras situações sem ao menos dar-nos a chance de enfrentar a realidade de forma honesta conosco mesmos. Pode ser que realmente estas sejam alternativas válidas, e em alguns casos as mais sensatas, mas seriam elas a única saída? Será que não haveria uma outra forma de solucionar o mesmo problema? Fugir de um problema pode ser a solução mais atraente, mas nem sempre ele desaparecerá. Pode ser que em algum momento o problema reapareça ou volte mais forte ainda e nós teremos que resolvê-lo ou fugir novamente.

Outro ponto bastante comovente no filme é o amor de Joy por Jack. O menino crescia, na medida do possível, com tudo o que ele mais precisava: o amor de sua mãe. Ela lhe deu amor, carinho, ensinou, educou e, no momento de maior angústia, ela o colocou no mundo, como se lhe desse à luz novamente. Fazendo seu papel de mãe de apresentar o mundo ao seu filho. Ele, por sua vez, era quem a sustentava emocionalmente e a fazia lutar pela vida pelo simples fato de existir. E isso nos mostra o quanto precisamos de pessoas ao nosso redor, como suporte, como apoio nos momentos de grandes dificuldades e tribulações.

Por fim, gostaria de concluir com uma das cenas mais fortes e mais importantes do filme: quando os dois, mãe e filho, após já terem estado em um longo processo de readaptação ao mundo real desde sua libertação, regressam ao quarto onde ficaram presos por anos. Jack entra, percebe a falta de alguns móveis e diz “Ele parece pequeno agora”, “Não é mais o Quarto, talvez porque a porta esteja aberta. Sem a porta ele não é o Quarto”. Tais dizeres soam como: “Esse problema agora é pequeno. Eu tinha a percepção de que ele era muito maior. É porque eu estava naquela condição ‘x’, mas agora EU mudei. Por isso esta situação não é mais a mesma”.

Nesse momento, Joy e Jack conseguem ressignificar aquela situação de horror vivida naquele lugar. Ele se despede de cada uma das coisas que restou no quarto e pede para que sua mãe faça o mesmo. É como dar um desfecho àquela história mal acabada, desatar o nó, romper definitivamente com o quarto, e assim abrir espaço dentro deles para que suas vidas pudessem recomeçar a partir dali.

Espero que você tenha a oportunidade de assistir esse filme e ser transformado por ele. E que a partir daí tenha coragem para mudar alguma situação difícil em sua vida.