super-951190_1920
  pixabay

Pele: Lugar de sensações físicas e emocionais e, consequentemente, doenças psicossomáticas

Um olhar psicanalítico

A pele é o “envelope” do nosso corpo. É através dela que experimentamos o mundo e sentimos boa parte das sensações, sejam elas de origem física ou emocional. É por meio da pele que sentimos, por exemplo, o frio, o calor e a dor. O tato da pele nos permite experimentar texturas, sentir se algo está seco ou molhado, e assim por diante. Além de reagir a estímulos externos, é também na pele que vivenciamos certas emoções, como, por exemplo, um arrepio de medo ou de repulsão a determinadas situações que nos deixam literalmente “à flor da pele”.

Quando relacionada às emoções, “a pele forma (…) um canal de comunicação pré-verbal, no qual os sentimentos são expressos e podem ser experimentados e observados”. Contudo, sendo o maior órgão do organismo humano, a pele está mais associada ao sistema nervoso do que imaginamos. E essa relação é tão intrínseca a ponto de podermos “(…) supor que aquilo que acontece em um sistema [do corpo humano] pode reverberar no outro sistema, assim, aspectos emocionais podem influenciar as patologias na pele”.

Nesse sentido, é possível intuir a existência de uma relação psico-soma (psíquico-corpo/matéria) que envolve elementos subjetivos, como emoções, sentimentos, fantasias e agressividade que se refletem no tecido dérmico. E, dependendo da proporção e intensidade de cada um desses elementos, pode-se manifestar no indivíduo algum tipo de patologia dermatológica.

Segundo o psicanalista inglês Donald Woods Winnicott, a pele é a zona limítrofe entre o eu e o não-eu. E aprendemos isso desde o muito cedo em nosso processo de maturação, antes mesmo de termos consciência de quem nós somos, no útero materno.

Ao nascer, o bebê ainda não consegue interpretar o que está acontecendo com ele. No entanto, algumas noções sensoriais são perceptíveis ao recém-nascido:  quando sente frio, o bebê é aquecido; quando chora porque está com fome, é alimentado; e assim por diante. Ou seja, suas necessidades são supridas “mágica e misteriosamente” por ele mesmo de alguma forma. Cria-se, portanto, no imaginário do bebê o que a psicanalista inglesa, Melanie Klein, chama de fantasia de onipotência, isto é, quando o bebê tem a ilusão de poder criar tudo que precisa para si mesmo.

Segundo Winnicott, não existe, no campo do processo psíquico, a figura da mãe e do bebê, mas sim a entidade “mãe-bebê”. É como se, para o bebê, após seu nascimento, a mãe e ele fossem uma pessoa só. A esse fenômeno, na psicologia, dá-se o nome de simbiose. Só a partir do desenvolvimento e amadurecendo do bebê é que ele vai entendendo que a mãe e ele são seres distintos e independentes. E nesse processo de desenvolvimento saudável a mãe exerce papel essencial, já que ela precisa ser suficientemente boa.

Esse rótulo de “suficientemente boa” a que Winnicott atribui à mãe não remete à ideia da mãe perfeita, mas sim à ideia daquela que é capaz de suprir as necessidades físicas e afetivas do bebê, suportando seus impulsos destrutivos e agressivos.

É através do cuidado materno que o bebê vai se percebendo como um ser constituído de um contorno, isto é, de algo que faz fronteira entre ele e o mundo exterior. O toque da mãe vai moldando o bebê e dando a ele a sensação de ser um indivíduo único e inteiro. Nesse sentido, percebemos que a pele detém um papel crucial no nosso desenvolvimento psíquico.

Dessa forma, o bebê cresce saudável psicologicamente, pois entende sua inserção no mundo e, com isso, que a vida vale a pena ser vivida. Entretanto, se esse processo não ocorrer de maneira saudável, se o ambiente (que vai além da mãe) não suportar as emoções da criança, a pele pode se tornar um lugar de conflitos e manifestações psicossomáticas ao longo da vida do indivíduo.

Estando a pele ligada à noção da boa aparência e da beleza exterior, as doenças dermatológicas se tornam um grande sofrimento físico e emocional para o sujeito, já que este pode sentir-se envergonhado e constrangido ao se expor às outras pessoas em situações de convívio social por conta do aspecto estético ruim que a doença lhe confere – seja ela uma doença que descame a pele (como é o caso da psoríase), ou que a faça perder pigmentação (como é o caso do vitiligo), dentre outras doenças de pele.

De acordo com pesquisadores, “as manifestações aparentes na pele não podem, em geral, ser disfarçadas: a emoção como manifestação física tem na pele um meio de expressão; os registros de experiências vividas estão ali colocados, na forma de cicatrizes; as lesões de uma doença marcam o espaço de uma ferida física e, por que não dizer, psíquica, tomando a pessoa como uma totalidade psicossomática”.

As doenças de pele podem ser encaradas de um modo simbólico. Uma interpretação possível é a de que as doenças dermatológicas refletem o desejo de retornar ao estado simbiótico com a mãe. Assim, a doença surge como uma forma de regressão para suportar a angústia de não se sentir inteiro, completo. Dessa maneira, a pele doente expressa o sofrível momento de ruptura com a mãe.

Ressalta-se, no entanto, que nem tudo é culpa da mãe. Somos seres extremamente complexos e, por isso, não é somente da mãe que o bebê depende para se tornar uma pessoa psicologicamente saudável. Outros fatores ambientais, como o pai e o convívio familiar, também colaboram para o nosso desenvolvimento. Além do mais, nós também temos uma parcela de “responsabilidade” em nossa própria evolução. A forma como aprendemos enxergar o mundo durante nosso amadurecimento faz toda diferença no momento de lidar com as emoções.

Voltando para os primeiros momentos da vida do recém-nascido, o fato de não ser atendido em suas necessidades pode criar “no bebê um sentimento permanente de frustração e fúria impotente”. Tal experiência pode levá-lo a criar “maneiras radicais de se proteger de crises afetivas e do esgotamento que disso pode resultar”. É como se o corpo “criasse” um sintoma físico a fim de suportar uma determinada angústia psíquica.

A pele sob a perspectiva da psicologia analítica junguiana

Segundo a teoria de Carl Gustav Jung, criador da psicologia analítica, nosso aparelho psíquico é dividido em inconsciente pessoal e inconsciente coletivo, os quais detalharei a seguir.

“Quando falamos em inconsciente, remetemo-nos logo ao conceito mais comum, que é o da psicanálise. Segundo a teoria psicanalítica freudiana, o inconsciente é basicamente formado por conteúdos infantis reprimidos. Tais repressões ocorrem na primeira infância por meio da moral do ambiente e percorre toda a vida do indivíduo”.

Por outro lado, na psicologia analítica, Jung defende que o inconsciente, além de constituir-se pelo inconsciente pessoal, que abarca as vivências pessoais do indivíduo, também é formado pelo  “[…] inconsciente coletivo, por este não estar conectado às experiências pessoais do homem, mas possuir conteúdo ‘totalmente universal’. E, justamente por ser universal, suas manifestações podem ser encontradas em toda parte e em todo lugar, algo que não acontece com os conteúdos pessoais”.

Enquanto o conteúdo do inconsciente pessoal diz respeito estritamente ao indivíduo, isto é, às suas vivências pessoais, o conteúdo do inconsciente coletivo é herdado de algo muito maior e mais profundo, capaz de alcançar milhares de gerações passadas. O inconsciente coletivo, portanto, “consiste [em] (…) arquétipos, que só secundariamente podem tomar-se conscientes”. Os arquétipos são estruturas do inconsciente coletivo que podem “se apossar” do homem, levando-o a ter experiências relacionadas à mitologia. Um exemplo do inconsciente coletivo em ação é quando alguém reage de forma inexplicável para salvar um filho em perigo ou a si mesmo. É muito comum nesses casos o relato da situação vir da seguinte forma: “Eu não sei como eu fiz aquilo, de onde tirei forças, mas na hora eu agi dessa maneira”.

Para o autor sempre há uma imagem arquetípica por trás de toda ação humana. Isto é, por trás de toda ação do homem existe uma relação com algum mito, e se não é o mito propriamente dito, é bem parecido, como uma releitura. Essa visão leva-me a acreditar que por trás dos problemas de pele pode haver uma questão mitológica associada às questões pessoais.

A pele, por ser um órgão de (re)conhecimento do mundo através do contato, pode estar relacionada a Eros, divindade mitológica que representa a necessidade instintiva do homem de se relacionar com o mundo à sua volta. “Na mitologia Grega, Eros é um deus primordial que possibilita a união de Uranus e de Gaia, céu e Terra, masculino e feminino, as duas polaridades fundamentais. É por meio dessa união que tudo pode ser gerado. Psiquicamente, Eros é o movimento em direção ao outro, o que leva a tocá-lo e a penetrá-lo, para que nesse encontro o indivíduo possa ser gerado, e a vida possa ser experienciada em seu movimento criativo”.

Portanto, do ponto de vista psicológico, pode haver uma ligação entre as doenças dermatológicas e a forma com que o sujeito vive suas relações. Pode acontecer, por exemplo, que o sujeito tenha dificuldades em se expressar e demonstrar seus sentimentos,  tornando-se rígido e fechado e manifestando, assim, seus conflitos de relacionamento em sua própria pele.

Por isso, se for o caso, além do tratamento indicado pelo médico dermatologista, é recomendado que a pessoa faça um acompanhamento psicológico, a fim de entender melhor seu funcionamento psíquico e averiguar as possíveis relações entre a patologia e as questões de natureza psíquica.

Portanto, se você possui algum sintoma de doença de pele e percebe que está experenciando conflitos, busque a psicoterapia como complemento de seu tratamento médico/dermatológico. Não sinta receio: procure um psicólogo para compartilhar com ele as questões que lhe afligem de modo a buscar o equilíbrio entre corpo e mente e minimizar possíveis manifestações psicossomáticas que afetam sua saúde física e mental.

Bibliografia

DIAS, Hericka Zogbi J. et al . Relações visíveis entre pele e psiquismo: um entendimento psicanalítico. Psicol. clin.,  Rio de Janeiro ,  v. 19, n. 2, p. 23-34, dez.  2007 .   Acessos em  11  mar.  2016.

GUERRA, Rafael Henrique; UEHARA, Silvia Kazumi. O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry, sob a ótica da psicologia analítica junguiana. São Paulo: Centro Universitário São Camilo, 2015. 80 p.

SANT’ANNA, Paulo Afrânio et al . A expressão de conflitos psíquicos em afecções dermatológicas: um estudo de caso de uma paciente com vitiligo atendida com o jogo de areia. Psicol. teor. prat.,  São Paulo ,  v. 5, n. 1, p. 81-96, jun.  2003 .   Acessos em  14  mar.  2016.

SOUZA, Carolina Grespan Pereira; SEI, Maíra Bonafé; ARRUDA, Sergio Luiz Saboya. Reflexões sobre a relação mãe-filho e doenças psicossomáticas: Um estudo teórico-clínico sobre psoríase infantil. Bol. psicol,  São Paulo ,  v. 60, n. 132, p. 45-59, jun.  2010 .   Acessos em  11  mar.  2016.