aushwitz
  Laszlo Balogh/Reuters

Resiliência como fator central para superação do sofrimento

O sofrimento humano

“Imagine-se na situação: o transporte de 1.500 pessoas está a caminho há alguns dias e noites. Em cada vagão do trem se estiram 80 pessoas sobre sua bagagem (seus últimos haveres). As mochilas, bolsas, etc. empilhadas impedem quase toda a visão pelas janelas, deixando livre apenas um último vão na parte superior. Lá fora se divisa o primeiro clarão da aurora. Todos achávamos que o transporte se dirigia para alguma fábrica de armamento onde nos usariam para trabalhar forçados. Aparentemente, o trem pára em algum lugar no meio da linha: ninguém sabe ao certo se ainda estamos na Silésia ou já na Polônia. O apito estridente da locomotiva causa arrepios, ecoando como um grito de socorro ante o pressentimento daquela massa de gente personificada de máquina e por esta conduzida rumo a uma grande desgraça. O trem começa a manobrar frente a uma grande estação. De repente, do amontoado de gente esperando ansiosamente no vagão surge um grito: ‘Olha a tabuleta: Auschwitz!’ Naquele momento não houve coração que não se abalasse. Todos sabiam o que significava Auschwitz. Esse nome suscitava imagens confusas, mas horripilantes de câmaras de gás, fornos crematórios e execuções em massa. O trem avança lentamente, como que hesitando, como se quisesse dar aos poucos a má notícia à sua desgraçada carga humana: ‘Auschwitz'”.

Agora a visão já está melhor: a aurora já permite ver a silhueta de um campo de concentração de colossais dimensões, estendendo-se por quilômetros à esquerda e à direita dos trilhos. Múltiplas cercas de arame farpado sem fim, torres de vigia, refletores e longas colunas de figuras humanas aos farrapos, cinzentas no alvorecer, que avançavam exaustas pelas ruas desoladas, totalmente retas, do campo de concentração – sem que ninguém saiba de onde. Aqui e ali se ouve um apito de comando – e ninguém sabe para que. Em alguns de nós, o terror fica estampado no rosto. Eu pensava estar vendo certos números de cadafalsos dos quais pendiam pessoas enforcadas. O terror tomava conta de mim, e isto era bom: segundo a segundo e passo a passo precisávamos nos defrontar com o horror”. 

Com essas palavras, Viktor Emil Frankl, psicólogo austríaco, inicia a angustiante narrativa  a respeito de sua chegada ao campo de concentração de Auschwitz, na Polônia, como prisioneiro dos nazistas. Ele mal sabia, mas ainda peregrinaria por mais outros três campos de concentração que, embora menores que o de Auschwitz, eram tão desumanos e cruéis quanto.

A fala de Viktor Frankl nos dá uma ínfima noção da tragédia e do horror que era a vida dos prisioneiros capturados pelos nazistas alemães durante a Segunda Guerra Mundial: “após o primeiro estágio de choque” – ele continua – “o prisioneiro passa para o segundo estágio, a fase de relativa apatia. A pessoa aos poucos vai morrendo interiormente. (…) É justamente o recém-internado que costuma ser destacado para grupos de trabalho nos quais terá que se ocupar com a limpeza de latrinas, eliminação de excrementos, etc. Quando estes são transportados sobre terreno acidentado, geralmente não escapamos de levar uns respingos do líquido objeto; qualquer gesto que revele uma tentativa de limpar o rosto, com certeza provocará uma bordoada do capo, que se irrita à excessiva sensibilidade do trabalhador. A mortificação dos sentimentos normais continua avançando. No começo, o prisioneiro desvia o olhar ao ser convocado, por exemplo, para assistir aos exercícios impostos a algum grupo como punição. Por enquanto ele não consegue suportar a cena de pessoas sendo sadicamente torturadas, vendo companheiros subindo e baixando horas a fio na sujeira, ao ritmo ditado a porrete”.

Relatos de intenso sofrimento humano, como aqueles retratados tão cruamente pelo sobrevivente Viktor Frankl, nos fazem refletir sobre duas questões: “Por que existe a dor? Ela é meramente destrutiva, ou é possível transformá-la em oportunidade de crescimento?”.

Ao longo da história da humanidade é possível encontrar exemplos incríveis de pessoas e nações que passaram por momentos de profunda dor, mas que conseguiram superá-la, transpondo as dificuldades com criatividade e esperança. A essa capacidade de superação dá-se o nome de resiliência, vocábulo emprestado da Física cujo significado original refere-se à “propriedade que alguns corpos apresentam de retornar à sua forma original após serem submetidos a uma deformação elástica”. Ou seja, pessoas ditas resilientes são aquelas dotadas da capacidade de voltar ao seu estado psíquico normal depois de terem vivenciado algum período de sofrimento intenso. Dessa forma, apesar dos pesares, o resiliente é capaz de encontrar um motivo pelo qual valeria a pena se adaptar (positivamente) à situação adversa em que se encontra, recuperar-se dela e emergir para uma vida significativa e produtiva.

Em síntese, resiliência pode ser definida como a “capacidade de transformar uma situação de dor em possibilidade de crescimento, ou ‘capacidade humana para enfrentar, sobrepor-se e ser fortalecido ou transformado por experiências de adversidade’”. No entanto, autores afirmam que para que isso aconteça é necessário que a pessoa em sofrimento possua alguém de confiança que possa lhe dar suporte frente às dificuldades, oferecendo uma escuta sensível e presença acolhedora.

Em busca de sentido da vida face ao sofrimento

A partir de sua experiência nos campos de concentração, Viktor Frankl elaborou uma teoria, denominada Logoterapia (Logo: sentido / Terapia: cura) ou Análise Existencial, que se baseia no conceito de que a vida é constituída de sentido. Para ele, o homem é livre para encontrar o sentido de sua própria vida, sendo munido de autotranscedência, autodistanciamento (de seu sofrimento), capaz de decidir pelo seu próprio futuro e apto a amar. Como humanos, somos assim: seres responsáveis pela própria existência, “e a responsabilidade está na ação no momento presente (‘aqui e agora’), na concretude de determinada pessoa numa determinada situação’”.

Segundo o autor, independentemente do condicionamento (físico, psicológico, sociológico), o homem sempre será livre para assumir uma posição. Mesmo em condições desfavoráveis, “o homem ainda assim é livre para buscar o sentido de sua vida”.

De acordo com Frankl, todo ser humano trás em si a vontade de buscar o sentido da própria vida. Sentido este que diz respeito à totalidade da vida, mas também à do momento presente. E, em última instância, um sentido mais amplo que diz respeito à vida de todos. Segundo Viktor Frankl, para explicar esse sentido “pode-se utilizar a seguinte metáfora: um filme é feito com milhares de fotos. Cada uma tem um sentido, mas o sentido do filme todo só será compreensível ao final da exibição. Então, só é possível compreender o sentido da vida de uma pessoa como um todo no encerramento desta vida, ou após o encerramento”.

Superando o sofrimento

As pessoas que se encontram em uma situação de sofrimento, que lhes dificulta vislumbrar uma forma provisória (adaptada) de existência, raramente conseguirão viver em função de um alvo vindouro, isto é, não têm uma meta de vida e, consequentemente,  não encontram seu fim. Essas pessoas  não conseguem mais viver projetadas para o futuro, como o fariam em condições normais.

Dessa forma, o sujeito vive única e exclusivamente no momento presente, como se este fosse seu único meio e fim, sem qualquer esperança no porvir. O indivíduo, portanto, não consegue encarar o tempo presente como uma transição entre o que “já existe” e o que “ainda virá”. Para melhor exemplificar, tomemos o caso de um homem desempregado.  É de se atentar que ele encontra-se numa condição situacional, de modo que o fato de ele “ESTAR” desempregado não significa que ele para sempre o “SEJA/É”, já que o desemprego não constitui o que ele é. Isto implica que o homem pode encontrar-se num estado de desemprego no presente, mas em algum estado futuro ele pode estar empregado. E é justamente essa visão que as pessoas que perderam a motivação e vivem congeladas no presente não conseguem enxergar.

Por isso a historia de Viktor Frankl nos serve como exemplo vivo de que projetar um futuro melhor nos ajuda a encarar o presente de forma menos ameaçadora e a atravessar o sofrimento de modo mais leve. Isto fica evidente em seus relatos de quando estava no campo de concentração: “quando chorando de dor nos pés lesionados postos em sapatos abertos, num frio terrível e enfrentando um vento gelado, eu ia mancando na longa coluna no caminho de vários quilômetros entre o campo e o local da obra (…) então aplico um truque: vejo-me de repente ocupando a tribuna de uma grande auditório magnificamente iluminado e aquecido, diante de mim um público a ouvir atento, sentado em confortáveis poltronas, enquanto vou falando (…)”.

Para encontrar forças para viver em situações tão desfavoráveis, como as do campo de concentração, Frankl se utilizava diversas vezes de uma frase de Nietzsche, que diz: “Quem tem por quê viver aguenta quase todo como. Ou seja, se existe algo que faça com que a vida valha a pena ser vivida, o sofrimento será suportado dado que existe esse algo motivador, seja ele uma pessoa ou um objetivo. É importante ressaltar que não se trata de uma negação doentia e quase psicótica do sofrimento.  Pelo contrário, é a busca de sentido do sofrimento.

Em muitos casos, no entanto, é necessário assumir o sofrimento como condição da existência humana para “amolecer” o coração. O que para algumas pessoas pode ser mais positivo que somente projetar um belo futuro. Segundo Viktor Frankl, “Certa vez perguntei a um companheiro como fizera desaparecer os seus edemas de fome, ao que ele confessou: Cureio-os chorando…”. Logo, podemos supor que a cura de uma dor, muitas vezes, pode vir pela aceitação da mesma.

Alguém pode dizer, contudo, que é quase impossível deslumbrar um futuro positivo em meio a tantas situações adversas. Para driblar esse pessimismo, podemos buscar no passado um lugar seguro. Ninguém pode roubar de nós aquilo que fomos ou o que já fizemos e construímos. E o passado pode ser uma boa forma de dar sentido à vida, pois é nele que o sentido da vida pode ter se realizado. Uma mãe ou pai em seu leito de morte, por exemplo, pode encher-se de orgulho e se sentir reconfortado ao perceber que seus filhos foram criados com amor, tendo ensinado a eles tudo que a vida lhes permitiu. A morte não pode ser evitada, porém a angústia de deixar a vida pode se transformar em alegria por ter vencido os obstáculos de se cuidar de uma família, e constatar que se fez tudo que estava a seu alcance para que seus filhos fossem felizes. E é aqui que entra também o sentido de sacrifício.

Quem leva uma vida dotada de sentido consegue observar nas pequenas coisas um ato heroico de sacrifício. Tomemos, como exemplo, um idoso que sofre o luto de sua esposa que falecera antes dele. Se ele aceitar que o ato de continuar vivo sem a esposa é um ato heroico de sacrifício por ela, a qual não suportaria o sofrimento de vê-lo partir primeiro, sua vida passa a ter um novo sentido. E o sentido de sacrifício vai reconfortar o seu coração pela perda da pessoa amada. A vida ganha novo significado.

Portanto, é possível afirmar que a vida tem sentido como um todo: passado, presente e futuro. Entretanto, deve-se ressaltar que “a dor que pode ser evitada deve ser evitada, do contrário seria masoquismo”. Encontrar um sentido para vida é algo realizável mesmo em meio ao sofrimento. Frankl diz que nem sempre vamos encontrar um sentido para o sofrimento de forma racional. Pelo contrário, muitas vezes o sofrimento só pode ser vivido encarando-o mediante a fé, a esperança e o amor.

A vida é muito mais do que podemos imaginar. Abra seus olhos e sua mente para buscar um sentido ao seu sofrimento. Assim, você poderá ter uma vida mais saudável. Seja mais resiliente: não deixe que as adversidades lhe façam desistir e abandonar tudo aquilo em que acredita; mas, que de forma positiva, você se adapte a uma determinada situação de sofrimento através de um sentido para sua vida. E, caso não consiga fazer isso sozinho, procure ajuda. A escuta e o acolhimento do psicólogo podem lhe ajudar nesse caminho.

Referências

FRANKL, Viktor Emil. Em busca de sentido: um psicólogo no campo de concentração. Trad_ Walter O. Schupp e Carlos C. Aveline. 14 ed. Vozes. Petropolis, 2001.

SILVEIRA, Daniel Rocha; MAHFOUD, Miguel. Contribuições de Viktor Emil Frankl ao conceito de resiliência. Estud. psicol. (Campinas),  Campinas ,  v. 25, n. 4, p. 567-576,  Dec.  2008.