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A esquizofrenia pode estar relacionada a um ambiente omisso?

A esquizofrenia

A esquizofrenia é um transtorno mental com incidência ligeiramente frequente sobre a população mundial. Estima-se que, no mundo todo, uma a cada 100 pessoas seja esquizofrênica. Normalmente, a doença começa a se manifestar no final da adolescência, mas as primeiras crises podem também aparecer tardiamente, no início da fase adulta. Por tratar-se de uma patologia crônica,  o indivíduo acometido por esse transtorno precisará de tratamento por tempo indeterminado ao longo de sua vida.

Considerado um transtorno de alta gravidade, a esquizofrenia começou a ser melhor definida pela psiquiatria somente no final do século XIX. Ela, inclusive, chegou a ser confundida com algum tipo de demência, tendo sido nominada como “demência precoce” por sua característica de progressiva perda de capacidade intelectual tanto durante a juventude como na transição para a fase adulta.

Foi o suíço Eugen Bleuler quem definitivamente dissociou a esquizofrenia do rol das demências. Ele constatou que o que chamavam de “demência precoce” tinha, na verdade, aspectos de fragmentação do pensamento e das emoções durante os surtos agudos – algo que não acontece com um demente típico. Dessa forma, Bleuler identificou que aquilo não se tratava de um estado de demência, ou seja, de diminuição das capacidades cognitivas e funções motoras, mas tratava-se de uma personalidade cindida, isto é, dividida. Por isso, batizou a doença de esquizofrenia, termo  de etimologia grega que significa cisão da mente (esquizo = cisão e frenia = mente).

O indivíduo que sofre de esquizofrenia apresenta alterações significativas em seus processos cognitivos,  o que afeta a forma como ele vive e sente suas emoções, bem como se reflete no modo com que lida com seus conteúdos internos e externos. A esquizofrenia causa uma desordem cerebral tamanha que deteriora a capacidade do indivíduo de pensar, tomar decisões, dominar suas emoções e relacionar-se com as pessoas.  O esquizofrênico vive seus pensamentos de forma fragmentada com a realidade.  É como se ele perdesse a capacidade de fazer associações lógicas com o mundo ao seu redor, expressando-se de forma inadequada, incoerente, ocasional e repetitiva. Um esquizofrênico pode passar horas fazendo um mesmo movimento sem se dar conta, como, por exemplo, ficar balançando para frente e para trás sentado em uma cadeira.

Como as percepções do  mundo interno e externo estão alteradas de forma bastante prejudicada,  a pessoa com esquizofrenia normalmente apresenta alucinações auditivas. Dessa forma, é comum ao esquizofrênico escutar vozes quando não há ninguém conversando com ele. Podem ocorrer, ainda, “alucinações visuais (visões irreais), olfativas (odores diferentes) ou táteis (sensação de ‘formigamento’)”, sendo estas, entretanto, não muito recorrentes.

Além dos sintomas mencionados anteriormente, a pessoa com o transtorno pode também ser acometida por “ilusões (percepção de objetos reais de modo distorcido) ou despersonalização (sensação de que o seu corpo está sofrendo modificações). Também são observados distúrbios motores, tais como catatonia (alterações intensas da motricidade caracterizadas por imobilidade e comportamento indiferente ao ambiente), movimentos estereotipados (repetitivos e sem propósito), atividades motoras incontroláveis e agitação, sendo as duas últimas as mais frequentes”.

Por conta dessas alterações bastante relevantes, o indivíduo esquizofrênico perde a noção de identidade pessoal, e tem extrema dificuldade de convívio social. Por isso, fica na maior parte do tempo isolado em seus pensamentos, fantasias e/ou atento às suas alucinações.

Apesar de até hoje as causas da esquizofrenia não terem sido desvendadas, existem evidências que sugerem que o transtorno possa ser de origem multifatorial, isto é, manifesta-se em decorrência de contingências genéticas e ambientais, bem como de alterações cerebrais e bioquímicas. Segundo especialistas, os “fatores ambientais, como tensão psicológica, complicações [no parto], problemas nutricionais e mesmo infecções [virais] do cérebro, também podem contribuir para o aparecimento ou agravamento da esquizofrenia”.

Há também indícios de que a esquizofrenia possa ser desencadeada por fatores hereditários, ou seja, transmitida de geração para geração. Apesar de não ser regra, não é raro “encontrarmos parentes de primeiro grau e gêmeos [idênticos]” que são portadores da doença. Isto sugere que “a proximidade genética contribui para o surgimento” da esquizofrenia.

Além das influências genéticas, estudos realizados em indivíduos com esquizofrenia através de “ressonância magnética e exames radiológicos por tomografia computadorizada indicam que o cérebro de pacientes esquizofrênicos apresenta anormalidades estruturais e fisiológicas”. Isto nos leva a constatar que a doença mental tem, ainda, influências de origem morfofisiológicas.

A esquizofrenia na infância sob a ótica da teoria winnicottiana

Donald Woods Winnicott, pediatra, psiquiatra infantil e psicanalista inglês, define a esquizofrenia como um estado de psicose mais severo, no qual o indivíduo cria defesas por meio da cisão por desintegração, por perda de realidade e contato com a realidade externa”.

Winnicott desdobra seus estudos a partir do “estado emocional da criança diante das transformações ocorridas durante os estágios iniciais da vida”, e, ao falar a respeito da esquizofrenia infantil, ressalta que o transtorno está relacionado ao fracasso do ambiente em suprir as necessidades do bebê. Por isso, para o autor, a esquizofrenia não se inicia a partir da adolescência, mas sim nos primeiros anos de vida, quando o bebê [ainda] está sendo gradualmente apresentado à realidade externa”.

Para Winnicott, a saúde metal, mesmo na vida adulta, está intrinsecamente ligada aos cuidados com o bebê na primeira infância. Cuidados que, segundo o autor, devem ser propiciados por um “ambiente suficientemente bom”, isto é, um ambiente (pais, família ou ambiente social presente) que consiga dar conta das necessidades do bebê, que se adapta a ele de forma constante. Em suma, “(…) um ambiente adaptado às necessidades do bebê, capacita-o a começar a existir, a ter experiências e, a partir dessas experiências constituir um [EU] pessoal”, o que se refletirá pelo restante da vida desse novo ser. Isto significa que o bebê precisa de um cuidado constate, mas na medida certa. Em alguns momentos, evidentemente, o bebê precisará de limites, de um certo “afastamento” da mãe, por exemplo, para que desenvolva sua autonomia. Mas, acima de tudo, é imprescindível que a criança se sinta amada e protegida. O bebê necessita ter a experiência de que, mesmo nos momentos onde demonstra sua agressividade, ele é contido e suportado. Assim, seu comportamento agressivo vai sendo vivido de forma tranquila e, aos poucos, o bebê vai aprendendo a lidar com esse comportamento de modo sadio.

Entretanto, “infelizmente muitas mulheres não têm a capacidade de (…) adaptar-se às necessidades do bebê. Não conseguem preocupar-se com a criança, por terem outras preocupações que julgam mais importantes em sua vida”. E isso pode trazer reflexos negativos à vida da criança, os quais podem se estender ao longo de sua vida, desde a infância até a velhice.

Em um processo de maturação normal, quando a mãe começa a ser percebida como pessoa completa, a criança no processo maturacional recorre ao ‘objeto transicional’, ou seja, adota um objeto que pode ser um ursinho, uma boneca de pano, a ponta do cobertor, uma fralda ou qualquer outro objeto que sirva como auxílio, refúgio, consolo para prover suas necessidades afetivas quando a mãe estiver ausente. Esses ‘fenômenos transicionais’ ocorrem no desenvolvimento emocional sadio, como uma simbolização da relação de parte do self com parte do ambiente, ou seja, a criança associa à mãe algo que está por perto”.

De acordo com Winnicott, o objeto transicional é algo que a criança constrói: ela mesma o cria e ela mesma algum dia o destrói. Por mais esdrúxulo que soe, para a criança o objeto é e não é a mãe, isto é, ela o considera como representativo da mãe, mas ao mesmo tempo sabe que o objeto não é a mãe.  Dada a representatividade materna atribuída ao objeto transicional, é comum a criança ficar desesperada quando vê “aquele” seu paninho sujo que carrega para cima e para baixo sendo lavado, ou mesmo quando ela não consegue achar seu bichinho favorito esquecido em algum canto. O objeto transicional trata-se, portanto, de uma fantasia da criança: quando a mãe não está por perto, a criança fica com esse objeto, e ele a mantém tranquila e segura já que, para ela, ele é o símbolo da mãe.

No entanto, quando a criança passa pela experiência de ser rejeitada pelo ambiente (pais, família, etc), ela, para suprir a ausência materna, gasta a maior parte do tempo em sua própria imaginação, com seu objeto transicional tentando recuperar esse laço fragilizado com a mãe. E, caso permaneça vivenciando isso por muito tempo, é possível que a criança comece a não mais distinguir a realidade da fantasia, do imaginário. Para Winnicott, essa experiência é atribuída a uma “loucura primária”, ou seja, uma psicose. Por isso, a criança que não se sente amada e acolhida pelo ambiente está propensa à cisão, isto é, a uma ruptura com o “sentimento de realidade e do contato com a realidade externa”.

“Evidencia-se, enfim, que a psicose constitui-se nos estágios iniciais da vida e prossegue por fases que vai da primeira infância até atingir um estado adulto. No início a criança é o conjunto mãe-bebê e é dessa inter-relação que dependerá a saúde mental do indivíduo. O bebê, nas etapas iniciais, precisará de um ambiente sustentador, que se adapte às suas necessidades e seja capaz de fornecer uma continuidade no seu existir, no sentido de se sentir real, integrado. Entretanto, se o bebê sofrer uma interrupção em sua continuidade de ser quando há a intrusão violenta do ambiente e falha na adaptação às suas necessidades, a esquizofrenia surgirá”.

A criança precisa que a presença e o cuidado maternos sejam contínuos e que suporte sua agressividade, do contrário ela estará propensa a desenvolver uma esquizofrenia. Quando o cuidado materno é ausente ou intermitente, a criança tem uma experiência de não continuidade de seu ser e, por consequência, tem a sensação de não ser íntegra, mas cindida. Por isso é usual encontrarmos crianças com diagnóstico de esquizofrenia onde se pode constatar que o cuidado da mãe não foi “suficientemente bom” nos seus primeiros anos de vida.

Todavia, convém reiterar que não se pode afirmar categoricamente que a causa da esquizofrenia seja única e exclusivamente alguma turbulência na relação entre mãe e bebê nos primeiros anos de vida do indivíduo. Vale ressaltar, contudo, que trata-se de um importante ponto de atenção dada a respeitabilidade da psicanálise winnicottiana. Além disso, há evidências concretas de que o relacionamento mãe-bebê pode ser um dos fatores que contribuem para a aparição dos transtornos psíquicos graves, como a esquizofrenia.

Portanto, fica o alerta aos pais que procuram sempre um problema na criança para se esquivarem, consciente ou inconscientemente, de alguma responsabilidade por seus atos. Lembrem-se que nem sempre o problema é a criança. E caso você se encontre em uma situação de dificuldade no relacionamento com seu filho(a), procure ajuda de um profissional psicólogo. A psicoterapia pode auxilia-lo a elaborar questões mal resolvidas de sua história de vida, que possivelmente refletem nos cuidados com o seu bebê. Entenda que o seu futuro e o da criança pode ser mais saudável e emocionalmente equilibrado.

Referências

ALVES, Cilene Rejane Ramos; SILVA, Maria Teresa Araújo. A esquizofrenia e seu tratamento farmacológico. Rev. Estudos de Psicologia, PUC-Campinas. v.18, n.1, p. 12-22, jan/abr 2001.  Acesso em 28 mar 2016.

PEREIRA, Cristiane Alves; BERLINCK, Luciana Chauí. Pensamento winnicottiano acerca da esquizofrenia infantil. Psicol. Am. Lat.,  México,  n. 8, nov.  2006. Acessos em  28  mar.  2016.

SOCIEDADE BRASILEIRA DE ESQUIZOFRENIA. Acesso em 28 mar 2016.