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  Sebastian Bergmann/Flickr

Arte e psicologia

Este texto é parte de uma pesquisa realizada por mim e minha amiga, Kazumi Uehara. O conteúdo é a respeito da arte e da forma como a psicologia se relaciona com ela. Tanto a psicanálise como a psicologia analítica, e como essas duas abordagens olham para o mesmo fenômeno. O texto será apresentado em 2 partes, sendo esta a primeira. Para ler a segunda parte, clique aqui.

Introdução

Quando a psicologia se aproxima da cultura e da arte, muitas vezes, não possui a intenção de explicar tais fenômenos, mesmo porque esse não é o seu papel (MALANCHEN, 2012). No entanto, em alguns momentos, a psicologia explicou a arte e a cultura de maneira reducionista. Contudo, buscamos tecer um diálogo enriquecedor entre a psicologia e as produções culturais. Para tanto, partimos do pressuposto de que o homem é produtor de cultura e de arte por meio do trabalho (MALANCHEN, 2012).

Mas, o que de fato seria cultura e arte? Lamentavelmente, a resposta para essa pergunta é tão complexa que nem mesmo a filosofia chegou a uma definição exata (KOSLOWISKI, 2013). A única coisa, porém, que não se pode negar é que diariamente somos tocados pela cultura e pela arte, e que elas são capazes de influenciar nossas vidas e até mesmo transformar nossa opinião e subjetividade (KOSLOWISKI, 2013). E esse é um dos fatores fundamentais que inspiraram esta pesquisa, ou seja, de alguma forma a cultura e a arte são capazes de transformar o homem. E por isso desperta a atenção da psicologia.

No campo da psicologia, Sigmund Freud e Carl Gustav Jung foram pioneiros em sugerir que a arte é capaz de traduzir, de certa forma, os sentimentos humanos. No entanto, suas colocações são totalmente distintas e divergentes entre si. Em 1913, Freud publicou seu texto seminal intitulado “O interesse científico da Psicanálise”, no qual faz uma ligação entre a criação artística e a neurose (GARCEZ, 2015). Isto significa que a arte, na psicanálise, está relacionada ao inconsciente do artista. Jung, por sua vez, defende que a arte não é fruto da neurose, já que em algum momento a inspiração do artista poderia se esvair com a resolução do conflito (CORRÊA, 2015). Para Jung, a arte é concebida no inconsciente coletivo (JACOBI, 1990).

(…)

Arte e cultura

O texto a seguir diz respeito a dois campos que estabelecem comunicação com a psicologia: a arte e a cultura. É preciso deixar claro, [antes de mais nada] que nossa intenção não é explicar esses fenômenos através da psicologia, mas o que buscamos é tecer um diálogo enriquecedor entre as partes. Queremos, portanto, relacionar o que há de singular na psicologia, na arte e na cultura. Para tanto, decidimos por bem apresentar o entendimento construído de alguns conceitos antes de adentramos no assunto.

Etimologicamente, o termo cultura significa cultivo, colheita, ou ainda, como também define a versão online do dicionário Michaelis (2015), utilização industrial de certas produções naturais. Considerado um dos temas mais intrincados na contemporaneidade, “cultura” pode ser ainda entendida como os costumes de um povo, as diversas formas de se viver na sociedade (MALANCHEN, 2012), e até mesmo padrões de comportamento no ambiente organizacional.

Malanchen (2012) se utiliza de teorias marxistas para discorrer a respeito da cultura. Segundo o pensamento da autora, “só é possível compreendermos corretamente a cultura se não a desvincularmos das relações de produção e reprodução da existência humana“ (MALANCHEN, 2012, p. 02). Ou seja, deve-se levar em consideração o “trabalho como ação do ser humano que transforma o meio, modificando-o e modificando-se e, com isso, produzindo cultura” (MALANCHEN, 2012, p. 02).

Nesse sentido, podemos invadir a antropologia para dar uma breve explicação sobre o homem. Afinal quem é esse homem produtor de cultura? Segundo Markus (1974):

[…] o homem é, antes de mais nada, uma criatura material, natural, um elemento da natureza, que só é capaz de prover suas necessidades pela interação material com os objetos naturais, os objetos de suas necessidades e que, por outro lado, dispõe de um número finito de potencialidades, de capacidades naturais, inscritas em sua estrutura orgânica […] o que diferencia o homem do animal deve ser procurado, em primeiro lugar, no que diferencia as atividades vitais de ambos. A atividade vital específica do homem é o trabalho, enquanto a atividade do animal se limita à aquisição direta e, em geral, ao simples consumo dos objetos que lhes são necessários (MARKUS,1974, p. 82).

E é justamente esse o sentido que queremos explorar nesse trabalho. O homem como produtor de cultura por meio de seu trabalho, ou seja, do fazer. Entretanto os apontamentos feitos até aqui não findam de forma alguma a discussão, que é muito mais extensa (MALANCHEN, 2012). Para Eagleton (2011), por exemplo, o termo cultura continua sendo muito complexo, porém não mais que “natureza”, seu oposto.

Outra definição, não menos complexa, é a ideia de “arte”. Segundo Koslowiski (2013), na filosofia há três definições clássicas sobre o que é arte: “a arte como imitação (mimética), expressão (expressionismo) e forma (formalismo)”.

Para Koslowiski (2013), aqueles que se apegam à teoria da imitação dizem que a arte é uma produção do homem. Coli (1995) descreve que essa produção humana desperta sentimentos admirativos. E, mesmo que não consigamos uma definição clara sobre o que é a arte ou uma obra de arte, sabemos minimamente reconhecê-la quando entramos em contato com uma.

Costa (2005), citado por Koslowiski (2013), discorre sobre o expressionismo de Leão Tolstoi (1898/2002) e R. G. Collingwood (1938/1958), que surgiu no século XIX. Para o autor, os argumentos que sustentavam a mimética foram dando espaço a uma nova teoria: a ideia de que a arte era uma expressão dos sentimentos do artista, e que esta suscitava os mesmos sentimentos no público. Logo, de acordo com essa teoria, aquele que entra em contato com uma obra de arte compartilha dos mesmos sentimentos que a obra traduz.

Clive Bell (1914), citado por Koslowiski (2013), querendo encaixar as novas formas artísticas do século XX em um arcabouço teórico, trouxe o formalismo: a arte como produção do homem, que possui forma significante. Para Koslowiski (2013, p. 04), a teoria de Clive Bell “consegue dar conta de obras como do impressionismo, cubismo e de muito da arte abstrata, entre outros movimentos do fim do século XIX e início do XX”. No entanto, o autor define “forma significante como aquela que produz emoção estética” (KOSLOWISKI, 2013, p. 04) e descreve que a emoção estética é produzida pela forma significante, deixando sua definição recursiva e vazia de significado. Por isso, Aires (2000), citado por Koslowiski (2013, p. 04) diz que “a definição é circular e, portanto, pouco esclarece o que é significante e emoção estética”.

Portanto, é possível concluir que falar sobre cultura e arte não é uma tarefa fácil. Nem mesmo a filosofia chegou a uma definição sobre ambas, sendo muitas as variáveis envolvidas que dificultam uma conclusão definitiva a respeito. O que não podemos negar, contudo, é que somos tocados diariamente pela cultura e pela arte e que elas são capazes de transformar nossas vidas e até mesmo formar nossa opinião e subjetividade (KOSLOWISKI, 2013).

Mas qual a relação que a arte possui com a psicologia, se é que tal relação existe? Como a psicologia pode colaborar ou dificultar a abordagem da obra de arte? Para responder a essas questões decidimos investigar o que a psicanálise e a psicologia analítica têm a contribuir. E é sobre isso que discorreremos (…) [a seguir].

A arte e sua relação com a psicologia

No campo da psicologia, a arte não deixa de ser um assunto denso e complexo. É possível encontrar visões totalmente distintas entre Freud e Jung, por exemplo. Freud (1913), citado por Garcez (2015, p. 01) afirma que através da arte “o artista libera suas fantasias mais pessoais plenas de desejo”. Para a psicanálise a arte está no campo da experiência pessoal do artista, ou seja, estaria mais ligado ao sintoma e a neurose (GARCEZ, 2015). Jung, por sua vez, não admite essa ideia uma vez que a resolução dos conflitos neuróticos poderia pôr fim às inspirações artísticas. Para ele a arte proveniente dessa natureza está mais próxima aos sintomas do que dos símbolos (CORRÊA, 2015).  Discorreremos a seguir como os autores defendem seu ponto de vista e os motivos pelos quais Jung discorda do pensamento psicanalítico.

A arte na Psicanálise

Segundo Garcez (2015), Freud em seu texto intitulado “O interesse científico da Psicanálise”, publicado em 1913, faz uma ligação entre a criação artística e a neurose. Na visão de Freud, o neurótico é aquele que se “rebela” contra a realidade que o impede de satisfazer seus desejos. Quando isso ocorre, instaura-se nesse indivíduo o sintoma ou doença. Porém, se o “rebelde” possuir habilidades artísticas encontrará na arte uma forma de retornar à realidade devido ao fato de que outras pessoas podem compartilhar com ele de sua obra.

Consideradas por Freud como “satisfações subjetivas” (GARCEZ, 2015), a arte trata-se de uma ilusão, porém sua realização é considerada eficaz do ponto de vista psíquico, pois “o artista libera suas fantasias mais pessoais plenas de desejo” (GARCEZ, 2015, p. 01). Tal realização, porém, só será considerada obra de arte após uma transformação que ocultará sua origem pessoal e trazer aspectos de beleza capazes de proporcionar prazer ao espectador (GARCEZ, 2015).

Recentemente, deparamo-nos com uma interessante entrevista concedida pela artista Marina Abramović ao portal da revista Marie Claire (2015). O título estampado para a entrevista era taxativo: “Marina Abramović: ‘Quanto pior sua infância, melhor sua arte’”, o que chamou-nos a atenção por sua afirmação categórica. Por isso decidimos desbravar pelos caminhos da psicanálise já que a afirmação nos dá pistas de uma psicologia com certo viés positivista, isto é, causa e efeito.

Além do mais, não é novidade que a psicanálise esteja atrelada à arte, talvez porque esta última explique ou traduza de certa forma os sentimentos humanos. Pode-se, por exemplo, tomar como evidência desse fenômeno, o próprio Freud, pai da psicanálise, o qual para explicar parte de sua teoria da sexualidade utilizou-se do mito de Édipo Rei.

Segundo Rivera (2005), a arte do século XX rompe com a organização estética das obras renascentistas. Surge, então, outra perspectiva do espaço visual. Nessa mesma época Freud fazia suas descobertas a respeito do inconsciente que mudariam para sempre seu olhar sobre o homem, que nunca mais passaria a ser considerado senhor de si. Apesar de Freud não considerar como arte a obra dos artistas modernos, foram estes últimos que começaram a buscar suas referências na psicanálise para criar sua expressão artística, pois o objetivo era encontrar o espontâneo e o subjetivo (RIVERA, 2005).

O que os artistas buscavam era maior liberdade na criação, e a concepção de uma arte inconsciente aos moldes do método analítico, a livre associação, onde se fala tudo que lhe vem à mente sem se prender a estruturas, davam aos surrealistas uma sensação de obras mais autênticas. Alguns contrapunham esse pensamento, pois diziam não ser possível que em nenhum momento a escolha não pudesse ser intencional (RIVEIRA, 2005).

O inconsciente na psicanálise freudiana, segundo Laplanche e Pontalis (1996), é um dos sistemas do aparelho psíquico, o qual constitui-se por conteúdos recalcados onde fica mantido tudo aquilo que o sujeito não consegue lidar conscientemente, sejam pensamentos, imagens ou recordações. “O recalque produz-se nos casos em que a satisfação de uma pulsão – suscetível de proporcionar prazer por si mesma – ameaçaria provocar desprazer relativamente a outras exigências” (LAPLANCHE; PONTALIS,1996, p. 430).

Esses conteúdos buscam constantemente retornar para a consciência por vários meios (LAPLANCHE; PONTALIS, 1996). Lacan, psicanalista freudiano, chamou esses meios de “formações do inconsciente”, que podem ser “o sonho, o lapso, o ato falho, o chiste e os sintomas” (GARCIA-ROZA, 2009, p. 171). O principal objetivo dessas formações é a satisfação, ou seja, o prazer.

Segundo Rivera (2005), Freud evidenciou que existe no inconsciente uma força contrária ao livre cumprimento do desejo, e como não ocorre a descarga total do conteúdo recalcado ele é formulado de forma disfarçada. Isto significa que o conteúdo do inconsciente freudiano só pode ir para a consciência “de maneira indireta ou disfarçada” (RIVERA, 2005, p. 14), como, por exemplo, através da arte.

O sonho era fonte inesgotável dos artistas surrealistas. A histeria também foi outro tema bastante comum nas obras daquela época, como se observa, por exemplo, em algumas das obras de Salvador Dalí que eram ligadas “a uma visão lírica da mulher ‘louca’ e do amor desvairado” (RIVERA, 2005. p. 15). Freud correlaciona a psiconeurose e a criação artística:

O neurótico, diz ele, é alguém que se rebela contra a realidade que se opõe à satisfação de seus desejos e se refugia então na doença. Se esse rebelde possuir, contudo, talentos artísticos, ele encontrará na criação um desvio que o leva de volta à realidade, graças ao fato de que outros com ele compartilham sua obra. Em suma, o artista aspira a uma espécie de autoliberação, e através de sua obra ele a partilha com outros indivíduos que sofrem com a mesma restrição inevitável a seus desejos. É nessa medida que o artista daria forma, em sua obra, às suas fantasias narcísicas e eróticas […] (RIVERA, 2005. p. 15).

Levando em consideração a psicanálise freudiana e seu mecanismo de funcionamento a partir da satisfação do desejo recalcado, podemos compreender o pensamento de Marina Abramović. A frase “Quanto pior sua infância, melhor sua arte” demonstra bem o pensamento psicanalítico, que para a artista nada mais é que a fonte de sua arte.

A arte na psicologia analítica

Na psicologia analítica junguiana, porém, diferentemente da psicanálise, a arte não é produto da neurose do artista, pois quando consideramos a neurose produtora de arte, como fonte de inspiração artística, estamos falando, na conceituação proposta pela psicologia analítica, do inconsciente pessoal. Para Corrêa (2015), essa seria uma ideia reducionista, já que em algum momento a inspiração do artista poderia se esgotar com a resolução do conflito (CORRÊA, 2015).

Para Silveira (2011), a psicologia pessoal do artista pode até justificar certas características de sua obra, porém não é o suficiente para explica-la. Segundo essa autora “a problemática individual […] tem tanta relação com a obra quanto o solo com a planta que aí germina” (SILVEIRA, 2011. p. 142), ou seja, tem pouca relação com a obra do artista.

De acordo com Jung (2001), citado por Corrêa (2015) “[…] a neurose não cria arte. Ela é não criativa e inimiga da vida. Ela é o fracasso e a não-realização”. Para Jung a inspiração da verdadeira arte não pode ser destruída com a resolução de um conteúdo reprimido. Para ele a arte proveniente dessa natureza está mais próxima aos sintomas do que dos símbolos (CORRÊA, 2015).

Segundo Maia (2015), a arte para a psicologia analítica junguiana é uma manifestação do inconsciente, isto é, uma expressão psíquica sem controle do consciente. Para Jung, o processo de criação advém de manifestações do inconsciente, situação em que o artista se deixa dominar por este. Tais manifestações, para Jung, provêm do inconsciente coletivo (JACOBI, 1990), conceito que focaremos mais à frente neste trabalho.

A arte traduz essas manifestações através da linguagem de seu tempo, produzindo símbolos (MAIA, 2015). Segundo Jung (2010), o símbolo transforma energia e representa uma ideia que se torna em elemento cultural como, por exemplo, a religião ou a arte. Para Jung “os símbolos nunca foram inventados conscientemente, mas foram produzidos pelo inconsciente (…)” (JUNG, 2010, p. 61).

De acordo com Pieri (2002), a palavra símbolo, do grego σύμβολον (SEANSAGENT, 2015) significa “coloco junto”. Na Grécia Antiga, era comum, as pessoas cortarem uma moeda ou anel em duas partes e entregar uma dessas partes a um amigo ou hóspede. As partes do objeto formavam um símbolo e mantinham um vínculo de reconhecimento entre as duas pessoas que se estendia a seus descendentes, pois mesmo que gerações se passassem, se duas pessoas se encontrassem e colocassem junto as partes formando o objeto todo, elas reconheceriam que um vínculo havia entre seus ancestrais.

 Na psicologia analítica junguiana, o símbolo tem duas funções. Na primeira, mais ligada à origem do termo e chamada de “função substitutiva”, um símbolo substitui outro (PIERI, 2002), como quando uma imagem é usada no lugar de uma frase ou palavra, por exemplo.

 A segunda função do símbolo, mais inovadora, se desdobra em duas outras funções: “formação” e “transformação”. Ambas estão mais ligadas ao inconsciente do que à consciência, já que nos remetem às mais variadas culturas (PIERI, 2002). Como exemplo, temos o sol que pode ser considerado um deus em determinadas culturas, ao passo que pode significar o novo ou a esperança em outras.

Para Silveira (2011), o símbolo é o produto de um diálogo entre o consciente e o inconsciente. Segundo a autora, o símbolo é não explicativo e, ao mesmo tempo, racional e não racional. Enquanto a linguagem tenta rascunhar a explicação de um fenômeno ou coisa, o símbolo nos leva ao âmago de sua origem, e com “irresistível força, ele atrai o homem que o contempla e, imprescindível como o próprio espírito do mundo, toca nossa alma” (JACOBI, 1990, p. 75).

Para melhor compreensão do tema “arte na psicologia analítica”, decidimos buscar a definição de arte no Dicionário Juguiano (PIERI, 2002). Contudo, não obtivemos sucesso, uma vez que este não possui o verbete arte dentre suas definições. Todavia, encontramos a definição de um termo próximo ao tema de pesquisa: pintura. Não é o ideal, mas a leitura de sua definição nos deu uma direção a respeito do assunto, e nos deixou a dúvida sobre o motivo da falta da definição de arte objetivamente.

O Dicionário Junguiano define pintura da seguinte forma:

Pintura, junto com desenho e outras atividades, é uma das formas expressivas de que Jung se ocupa desde 1911, constituindo verdadeira e própria “psicologia das representações figurativas”. Ela é considerada “obra de arte”, ou seja, meio de expressão simbólica através do qual remete, de alguma forma, a alguma outra coisa que não quer exprimir ou não se pode ainda exprimir […] (PIERI, 2002).

A arte é expressão simbólica e, portanto, pode gerar uma transformação em nós de acordo com as mais variadas experiências que transcendem a consciência. Mas como se cria a arte? A seguir apresentamos o que encontramos em nossas pesquisas como resposta a essa questão, de acordo com a psicologia analítica junguiana.

O processo criativo

“[…] O que é realmente essencial, realmente produtivo, é o Caminho – no final das contas, tornar-se é superior a ser” (Paul Kleen apud WAHBA; COLONNESE, 2014). Para o artista, o mais importante não é a obra pronta, mas o processo até que ela seja finalizada. Mas o que a psicologia analítica pode nos esclarecer a respeito de uma obra em desenvolvimento?

A fim de obter maior compreensão do processo criativo da arte, buscamos como referência Nise da Silveira (2011). Para a autora, a psicologia analítica junguiana não considera seu aspecto estético, pois isto seria explicar o fenômeno, o que não compete à psicologia. Segundo Silveira (2011), Jung, a priori, aborda dois processos distintos da produção artística nas obras literárias: o processo psicológico e o visionário.

As obras criadas através do processo psicológico são relativamente de fácil entendimento e seu conteúdo é bem familiar. A inspiração vem das experiências humanas que, levadas à condição de arte, são universalizadas, sendo que a aproximação não nos causa espanto. São assim os romances, as poesias, a comédia e a tragédia, nos quais o leitor é conduzido a vivenciar intimamente os sentimentos da alma humana. Para Jung, o artista age de forma intencional e goza de plena liberdade na estrutura e na construção do texto. Sua arte é o que é e não se trata de outra coisa (SILVEIRA, 2011).

Por outro lado, as obras visionárias não são nada familiares e nos causam estranheza. Diante delas o homem paralisa-se por sua característica audaz e remota, ou mesmo, por ser solene e repleta de significado. Parecem vir de um mundo distante, assombroso e inexplorado. O artista não possui governo à inspiração, mas é regido por ela, e sentirá em maior ou menor grau a força que o acomete durante o processo criativo (SILVEIRA, 2011).

Para esse tipo de obra, podemos citar como exemplo o artista russo Wassaily Kandinsky, considerado o pai da arte abstrata. Em seu livro “Degraus”, Kandinsky descreve o momento exato em que se deu conta da força do processo de criação da arte:

Lembro-me muito vivamente como eu parei diante desse espetáculo inesperado. Mesa, bancos, um enorme e altivo forno, armários e prateleiras – tudo decorado com ornamentos multicoloridos espaçados. Estampas nas paredes: um Hércules apresentado simbolicamente, batalhas, uma canção transmitida entre as cores. O canto vermelho da casa, cheio de ícones a óleo e em estampas. Pois foi nessas isbás incomuns que eu me encontrei com aquela maravilha, que posteriormente tornou-se um dos elementos de meus trabalhos. Foi aí que eu aprendi a não olhar para os quadros de fora, à distância, mas me mover dentro do quadro, viver nele… (PETROVA, 2015, p. 16 -19).

Em sua fala, Kandinsky exprime um movimento poético, e em suas pinturas as composições de cores e elementos são orquestradas como música (PETROVA, 2015). As palavras de Kandinsky expressam algo que vai além da vontade do artista, ou seja, transcendem a ele. É a arte que o ensina, é a arte que o movimenta, tal como se ele estivesse à disposição dela para ser usado.

A nosso olhar, as palavras de Kandinsky definem bem o que a psicologia analítica considera no processo criativo da arte, pois, segundo Freitas e Richards (2014), o processo de criação da arte é “um profundo compromisso com o novo e diferente” e necessita de uma fundamental “consciência de estar lidando com algo autônomo e plural, e uma disposição para colocar-se ‘a serviço’ para expressá-lo”. Além do mais, para essas autoras, por mais que haja um foco bem definido e domínio da técnica, nunca se sabe qual será o resultado exato da obra até que ela seja finalizada.

Até seus 30 anos de idade, Kandinsky tinha grande desejo de ser pintor, porém não se permitia ser um artista, pois para ele “a arte era um luxo inadmissível” (PETROVA, 2015, p. 11). Por esse motivo decidiu estudar Economia Nacional. Posteriormente, estudando a economia da região de Vologda, situada no norte da Rússia, ele se apaixonou pela cultura xamânica, pela natureza, com suas belas paisagens, e pelo povo simples e místico daquela região. Foi só a partir dessa experiência, mais interior que exterior, que ele se rendeu à arte (PETROVA, 2015).

A ideia de que a arte é fruto de uma experiência interior era bastante comum aos artistas de sua época, conforme relata Konstantin Korovin em 1892: “A paisagem não tem valor se é apenas bonita. Nela deve haver a história da alma, ela deve emitir um som que responde aos sentimentos do coração” (PETROVA, 2015, p.15).

Mas como posso conseguir o saber do coração? Só poderás conseguir este saber vivendo plenamente tua vida, quando tu vives também aquilo que nunca viveste, mas sempre deixaste para que outros vivessem…Deves dizer: a vida que eu ainda poderia viver, eu deveria viver e o pensar que eu ainda poderia pensar, eu deveria pensar (JUNG, 2009, p. 233 apud FREITAS; RICHARDS, 2014, p. 25).

De acordo com Petrova (2015), Kandinsky estaria tão convicto de que a arte emerge da alma que isso o levou a uma incessante busca por uma nova linguagem. Foi assumindo a arte em sua vida que Kandinsky conseguiu criar essa nova linguagem artística (PETROVA, 2015). Suas obras eram feitas de forma livre, sem preocupações estéticas e modelos externos. Seu maior trabalho era deixar a arte brotar de dentro para fora.

A respeito da arte moderna, Jung (2008), citado por Wahba e Colonnese (2014, p. 34), em um de seus ensaios sobra arte, discorre que “o espírito profético da arte se afastou da referência com o objeto e se dirigiu para o caos obscuro dos pressupostos objetivos”, isto é, o objeto do artista deixou de ser externo e belo e passou a ser o caos interior e a subjetividade (WAHBA; COLONNESE, 2014). Para Jung (1978b) citado por Wahba e Colonnese (2014, p. 35), “a arte moderna expressa à beleza do caos”.  Para ele, “esses pintores mergulham no elemento destrutivo e criam um novo conceito de beleza, um que se delicia na alienação de significado e de sentimento” (WAHBA; COLONNESE, 2014, p. 35).

Para ler a parte 2, clique aqui.

Referências

CORRÊA, Juliana. A produção criativa na arte e na doença. Psique Objetiva. Acesso em: 15 mar. 2015.

EAGLETON, Terry. A ideia de cultura. 2ª ed. São Paulo: Editora UNESP, 2011. 256 p.

FREITAS, Laura Villares de; RICHARDS, Maria Helena de Oliveira. Possibilidades de alteridade: o Livro Vermelho e elementos da arte contemporânea. Revista da Sociedade Brasileira de Psicologia Junguiana. São Paulo, v. 32/1. p.  20-30. n.1/2014.

GARCEZ, Marina. Arte e Psicanálise: Uma possível interseção com o surrealismo. Departamento de Psicologia, PUC-RJ. Acesso em 24 ago. 2015.

GARCIA-ROZA, Luiz Alfredo. Freud e o Inconsciente. 23ª ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2009. 236 p.

GUERRA, Rafael Henrique e UEHARA, Silvia Kazumi. O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry, sob a ótica da psicologia analítica junguiana. São Paulo: Centro Universitário São Camilo, 2015. 80 p.

JACOBI, Jolande. Complexo, Arquétipo, Símbolo: na psicologia de C. G. Jung. Tradução de Margit Martinic. 1ª ed. São Paulo: Cultrix, 1986. 170p.

JUNG, Carl Gustav. Símbolos da Transformação. Tradução de Eva Stern. 13 ª ed. Petrópolis, Vozes, v. 5. 2011. 656 p.

KOSLOWSKI, Adilson. Acerca do problema da definição de arte. Revista Húmus. Mai/ ago. 2013. 9 p.

LAPLANCHE, Jean; PONTALIS, Jean-Bertrand. Vocabulário da Psicanálise. Tradução de Pedro Tamen. São Paulo: Martins Fontes, 1996. 574 p.

MALANCHEN, Julia. O conceito de cultura: definição e compreensão a partir da teoria marxista. Unicamp, 2012. 12 p.

MAIA, Denise Diniz. Perspectivas psicológicas de Jung sobre as ciências e a arte. Instituto Junguiano de São Paulo. São Paulo. Acesso em: 15 mar. 2015

MARKUS, Gyorgy. Teoria do Conhecimento no jovem Marx. Tradução de Carlos Nelson Coutinho e Reginaldo Di Piero. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1974. 129 p. Acesso em: 10 mar. 2015.

MICHAELIS. Dicionário online. Melhoramentos 2009. Acesso em: 05 mar. 2015.

PETROVA, Evgenia. Kandinsky no contexto da cultura russa do fim do século XIX e do começo do século XX. In Wassily Kandinsky. Tudo começa num ponto. Centro Cultural Banco do Brasil. São Paulo, 2015. 184 p.

PIERI, Paolo Francesco. Diocionário Junguiano. Tradução de Ivo Stomiolo. São Paulo: Paulus, 2002. 563 p.

RIVERA, Tania. Arte e Psicanálise. 2ª ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2005. 75 p. Acesso em: 21 abr. 2014.

SEANSAGENT. Tradução. Enciclopédia em linha, dicionário de definições. 2013. Acesso em 11 abr. 2015.

SILVEIRA, Nise da. Jung: vida e obra. 21ª ed. São Paulo: Paz e Terra, 2011. 199 p.

WAHBA, Liliana Liviano e COLONNESE, Luisa Rosenberg. Um olhar da Psicologia Analítica sobre a arte contemporânea. Revista da Sociedade Brasileira de Psicologia Junguiana. São Paulo, v. 32/1, n.1, p. 31-38, 2014.