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  Uffizi Gallery Florence/Louvre (Paris)

Uma obra, dois olhares

Este texto é parte de uma pesquisa realizada por mim e minha amiga, Kazumi Uehara. O texto será apresentado em 2 partes, sendo esta a segunda. Por isso caso não tenha lido a primeira parte, cujo título é ‘Arte e psicologia’, sugiro que faça essa leitura primeiro. Para isso clique aqui.

Esta pesquisa mostra como a psicologia e a arte se relacionam entre si, e mais especificamente como a psicanálise e a psicologia analítica observam a arte. Na primeira parte do texto, exemplificamos essas duas escolas psicológicas com a artista contemporânea Marina Abramović e o considerado pai da arte abstrata, Wassily Kandinsky. Entretanto, o que nem todo mundo sabe é que Freud e Jung analisaram a mesma obra de arte e escreveram suas próprias análises acerca do que pode ter levado o artista a desenvolve-la. E é a respeito de suas análises sobre a pintura “Virgem, o menino Jesus e Sant’Ana” de Leonardo da Vinci, que vamos discorrer a seguir.

Conforme pôde-se observar, as teorias de Sigmund Freud e Carl Gustav Jung são bastante divergentes entre si. E, por esse motivo, decidimos apresentar nas seções seguintes as análises desses autores sobre uma mesma obra do renascentista Leonardo da Vinci intitulada A Virgem, o menino Jesus e Sant’Ana (Museu do Louvre). Com auxílio de escritos de Nise da Silveira, Jung e Freud vamos acompanhar a linha de pensamento de cada um deles.

A obra retrata uma cena com três figuras emblemáticas da Cristandade: Sant’Ana, avó de Jesus, repousada sobre uma rocha; Maria, filha de Sant’Ana, sentada no colo de sua mãe, estende os braços para segurar o menino Jesus. O menino, por sua vez, agarra um cordeiro pelas orelhas enquanto envolve seu pescoço com a perna esquerda. As duas mulheres da cena, ambas igualmente jovens, olham para o menino (SILVEIRA, 2011). O ambiente remete a um lugar de clima seco e pedregoso, tendo ao fundo uma árvore com folhagem verde em primeiro plano e um horizonte com uma cadeia de montanhas rochosas cinzentas.

Segundo Freud, a pintura remete à infância de Leonardo da Vinci, que era filho ilegítimo de ser Piero da Vinci, um notário, e de Caterina, uma camponesa. Seu nascimento se deu no dia 15 de abril de 1452, próximo à Vinci, nas redondezas de Florença, na Itália. Naquele mesmo ano, seu pai, Ser Pietro, casou-se com outra mulher, donna Albiera, com quem não teve filhos ao longo de sua vida matrimonial. Após ter sido separado de sua mãe biológica, por volta dos 3 aos 5 anos de idade, Leonardo foi viver com o pai e a madrasta, donna Albiera. Naquela época, ser filho ilegítimo não era uma desonra.  (FREUD, 2015).

Segundo Silveira (2011), Freud, ao relacionar a obra com a infância do pintor, entende que a figura de Caterina estaria associada à Sant’Ana, devido a sua aparência jovem tanto quanto a de sua filha Maria, e também pela disposição das personagens na cena. Na obra, Sant’Ana está distanciada do menino devido à presença de Maria que se interpõe entre eles. Maria, então, assumiria a figura da madrasta donna Albiera, e Caterina, personificada em Sant’Ana, estaria apenas distante observando seu filho nos braços de sua nova “mãe”.

Freud se atenta também à expressão facial de Sant’Ana com seu sorriso indefinido. Em suas concepções, Freud alega que o sorriso esboçado por Caterina exprime sentimentos de dor e inveja por perder filho e o “marido” para outra mulher, donna Albiera. O estranho sorriso que exala infelicidade pode ser observado em outras obras do artista em mulheres e adolescentes, como, por exemplo, no rosto de Mona Lisa. Para Freud, esse sorriso seria uma projeção inconsciente das recordações arcaicas da infância do artista (SILVEIRA, 2011).

Freud analisou, ainda, as pregas do manto de Maria que, para ele, se assemelhavam às asas de um abutre. Para o pai da psicanálise, Leonardo da Vinci teria tido um delírio com a ave, algo que Leonardo explicita em seu relato: “parece que estava em meu destino me ocupar assim do abutre, pois me vem uma recordação muito antiga, de quando eu ainda estava no berço, em que um abutre desceu até mim, abriu-me a boca com sua cauda e bateu muitas vezes a cauda contra meus lábios” (FREUD, 2015, p. 103).

Tal interpretação de Freud viria da fábula egípcia da deusa Mut, que Leonardo provavelmente teria conhecimento. Na mitologia egípcia, Mut é representada tanto pela figura de um abutre quanto por uma mulher com cabeça de abutre. Outro fato interessante é que, tanto para escrever a palavra “mãe” como o nome da deusa, era utilizado o mesmo hieróglifo do abutre (SILVEIRA, 2011).

Mut também era vista como possuidora do falo, conservando os princípios masculinos e femininos. Por esse motivo, os egípcios acreditavam que existiam somente abutres fêmeas que se reproduziam sem a necessidade do macho. Nesse sentido, o psicanalista sugere que Leonardo teve a fantasia inconsciente de ser filho de um abutre, pela ausência paterna em seus primeiros anos de vida (SILVEIRA, 2011).

Jung, por outro lado, ao discorrer acerca da mesma obra, inicia sua análise apontando que o tema “dupla maternidade” não é o único no gênero de pintura de Leonardo da Vinci. Jung se abstém de discutir a possibilidade de a Sant’Ana que aparece na cena ser personificada como a mãe biológica do artista, indicando que seu objetivo é, na realidade, mostrar que a obra não tem como motivação as experiências pessoais ou infantis de Leonardo, já que é possível encontrar o tema da dupla maternidade em outros campos (JUNG, 2000).

Jung declara que o motivo das duas mães pode ser “encontrado no campo da mitologia e da religião em múltiplas variações, constituindo a base de numerosas représentations collectives (JUNG, 2000, p. 55). Ele assim se justifica apresentando o exemplo da dupla descendência da mitologia, na qual o indivíduo tem pais humanos e divinos, como o caso de Héraclès – grego –  ou Hércules – romano –, “que foi inconscientemente adotado por Hera, alcançando a imortalidade” (JUNG, 2000, p. 55).

Outro exemplo é encontrado na mitologia egípcia, onde o Faraó era uma figura vista com dupla natureza: humana e divina. Segundo Jung, nos templos egípcios encontram-se representados nas paredes “a segunda concepção e o nascimento divino do Faraó – ele ‘nasceu duas vezes’” (JUNG, 2000, p. 55).

A fim de mostrar que os mitos estão presentes com frequência em nosso cotidiano, podemos traçar um paralelo entre o mito do semideus Hércules e o herói contemporâneo das histórias em quadrinhos, o Super Homem, como exemplos de dupla descendência e dupla maternidade.

Segundo a mitologia grega, Zeus enganou a mortal Alcmena fingindo ser Anfitrião, seu marido, e teve um filho com ela, Hércules. “A deusa Hera, esposa de Zeus, enciumada pela traição, enviou duas serpentes para matar Hércules ainda no berço. Não teve êxito, pois ainda bebê, Hércules estrangulou as serpentes com as próprias mãos” (SOUSA, 2013, p. 77). Já adulto, Hércules foi provocado por Hera, o qual, em um ataque de fúria, assassinou a própria esposa e seus três filhos. Como punição pelo crime, foi atribuído a ele “doze tarefas de extremo risco” (SOUSA, 2013, p 77).

Hércules originalmente recebeu o nome de Alcides, em homenagem a seu “avô” Alceu, pai de Anfitrião. O nome Héraclès (Hércules) significa “a glória de Hera”, tendo sido uma tentativa sem sucesso de apaziguar a ira de Hera (WIKIPÉDIA, 2015d), já que esta foi perseguidora de Hércules por toda a vida.  A despeito disso, Anfitrião, no entanto, o tratou como filho. Ao perseguir Hércules, Hera desperta nele sua força e seu lado heroico, e é isso que a torna sua mãe inconsciente, isto é, uma mãe que faz de tudo para que seu filho se torne o melhor (JUNG, 2011).

Na contemporaneidade, Kal-El, o Super Homem, foi enviado à Terra por seus pais biológicos, Jor-El e Lara, pois seu planeta Crípton estava para ser destruído. Na Terra, foi encontrado pelo casal Jonathan Kent e Martha Kent, que o adotaram dando-lhe o nome de Clark Joseph Kent (SOUSA, 2013;  WIKIPEDIA, 2015e). Assim como Hércules, Kal-El possuía super-poderes desde bebê, mais notoriamente a incrível força, mas sua função como super herói era, acima de tudo, “servir, defender, vigiar. Ele é […] aquele que põe o interesse coletivo acima de seus próprios, que se sacrifica por uma causa, um ideal, por um mundo justo onde o bem-comum está acima de tudo” (SOUSA, 2013, p. 76).

Tanto o mito antigo de Hércules quanto o mito moderno do Super Homem são capazes de despertar em nós admiração e inquietação. Seja “pelos poderes de origem sobrenatural, ou pelas suas virtudes (bondade, coragem, compaixão)” (SOUSA, 2013, p. 77), ou pelo fato de que “a ideia de um segundo nascimento” ou dupla descendência possa ser encontrada em todo tempo e lugar (JUNG, 2000, p. 56).

Segundo Jung, essa ideia aparece “nos primórdios da medicina como meio mágico de cura” (JUNG, 2000, p. 56) e é encontrado também em muitas religiões como experiência mística, e ainda “(…) constitui a ideia central da filosofia natural da Idade Média e […] a fantasia infantil de muitas crianças pequenas e crescidas de que seus pais não são os verdadeiros, mas apenas pais adotivos a quem foram confiadas” (JUNG, 2000, p. 56).

E é por isso que Jung rejeita o ponto de vista de Freud, pois para ele é inconcebível que todas as pessoas realmente tenham tido duas mães ou que os poucos que passaram por essa experiência “hajam contagiando o resto da humanidade com seu complexo” (JUNG, 2000, p. 56). Nas palavras de Jung: “se Leonardo da Vinci retratou suas duas mães em Sant’Ana e Maria – o que duvido – ele exprimiu algo em que muitos milhões de pessoas acreditavam antes e depois dele” (JUNG, 2000, p. 56).

Na visão de Jung, seus argumentos são validados pelos comentários de Freud a respeito do abutre encontrado na pintura de Leonardo Da Vinci. Freud usa o seguinte verso extraído da Hieroglyphica de Horapollo ao falar da obra de Leonardo Da Vinci: “os abutres são exclusivamente femininos e significam simbolicamente a mãe; eles concebiam através do vento (πνεύμα / pneûma)” (JUNG, 2000, p. 56). Esta palavra, pneûma, por influência do Cristianismo recebeu o significado de “espírito” (JUNG, 2000). Para Jung, “[…] não há dúvida de que esse fato indica Maria, virgem por sua natureza, que concebeu do Pneuma, como um abutre” (JUNG, 2000, p. 57).

Segundo Jung, Horapollo também atribui o abutre a Atená, gerada da cabeça de Zeus, também virgem e que só conhecia a maternidade espiritual. Para ele, trata-se de mais uma menção a Maria, já que não há prova de que Leonardo tenha pensado em si mesmo ao pintar o quadro (JUNG, 2000). “Se for correto supor que ele mesmo se identificava com o menino Jesus, provavelmente representava a dupla maternidade mítica e de modo algum sua própria história pessoal” (JUNG, 2000, p. 57).

Em outras palavras, Jung acredita que a inspiração da obra de Leonardo Da Vinci veio do inconsciente. Mas, como funciona esse inconsciente que Jung descreve? Como a psicologia analítica olha para o inconsciente freudiano? Como o mito pode operar na vida do indivíduo? Foi para obter respostas a esses questionamentos que buscamos alguns textos de Jung, os quais discutiremos em outro texto.

Até lá!

Referências

FREUD, Sigmund. Observações sobre um caso de neurose obsessiva: (“O homem dos ratos”), uma recordação de infância de Leonardo da Vince e outros textos. Tradução de Paulo César de Souza. Editora Companhia das Letras, v. 09, 2013. 316 p. Acesso em 09 mai. 2015.

GUERRA, Rafael Henrique e UEHARA, Silvia Kazumi. O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry, sob a ótica da psicologia analítica junguiana. São Paulo: Centro Universitário São Camilo, 2015. 80 p.

JUNG, Carl Gustav. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. Tradução de Maria Luíza Appy; Dona Mariana R. Ferreira da Silva. Rio de Janeiro: Vozes, 2000. 469 p.

JUNG, Carl Gustav. A dinâmica do inconsciente: Energia psíquica. Tradução de Maria Luisa Appy. 11ª ed. Petrópolis, Vozes, v. 8/1, 2011. 104 p.

JUNG, Carl Gustav. Dois escritos sobre a psicologia analítica: Psicologia do inconsciente. Tradução de Maria Luisa Appy. 19 ª ed. Petrópolis, Vozes, v. 7/1, 2011. 168 p.

SOUSA, Luciano Dias de. Superman: Mito e herói na contemporaneidade. Revista Ícone, Vol. 11, p. 70-80, jan. 2013. Acesso em: 12 out. 2015.

SILVEIRA, Nise da. Jung: vida e obra. 21ª ed. São Paulo: Paz e Terra, 2011. 199 p.

d. WIKIPÉDIA. Desenvolvido pela Wikipédia Foundation. Apresenta conteúdo enciclopédico. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/H%C3%A9racles>. Acesso em: 27 nov. 2015

e. WIKIPÉDIA. Desenvolvido pela Wikipédia Foundation. Apresenta conteúdo enciclopédico. Disponível em: < https://pt.wikipedia.org/wiki/Superman>. Acesso em: 26 jul. 2015.