'Riot of colour': Pan and Syrinx (1617) by Flemish master Peter Paul Rubens

Pânico, medo e ansiedade: uma análise psicológica através da mitologia

Texto publicado na Revista Mythos (03/2017):

Pânico, medo e ansiedade têm sido temas bastante frequentes tanto no dia a dia das pessoas como nos consultórios de psicologia. Aqueles que passam por essas situações vivenciam sensações aparentemente incontroláveis de apreensão e tensão por se virem diante de uma ameaça constante e iminente, seja ela real ou imaginária (GUERRA, 2016). Essas sensações normalmente vêm acompanhadas por alterações fisiológicas relevantes, tais como “palpitações, dificuldades em respirar, tonturas, suores, sensações de calor e frio ou tremores”, causando bastante angústia e sofrimento ao  indivíduo (BAPTISTA, CARVALHO, LORY, 2005).

Durante as crises de pânico e/ou ansiedade, é difícil ao sujeito tomar o controle sobre os sintomas que lhe afloram. Muitos dos que já passaram por essas crises relatam que a experiência do pânicoé algo extremamente marcado pelo aspecto psicológico, com sentimentos da ordem do terror, do medo e do desespero. Outros, no entanto, relatam que tal experiência está mais ligada ao soma  que à psique, isto é, tem mais a ver com o corpo do que com a mente. Para estes, as sensações físicas que sentem durante as crises (disritmia cardíaca, falta de ar, suor frio, etc.) se sobrepõem à  tensão psicológica, Contudo, independentemente de como cada um encara seus momentos de crise, uma pergunta surge: o que causa o medo incontrolável, as crises de pânico e a ansiedade  exagerada?

Infelizmente, não se pode dizer que exista uma resposta exata para essa questão, muito pelo fato de que nossos conflitos internos não são nada exatos, mas sim permeados de nossa própria subjetividade. Bem ou mal, o psiquismo humano está infinitamente distante da exatidão: cada indivíduo carrega vivências e experiências que moldam sua  personalidade e consciência de forma única, de modo que o que gera medo, pânico ou ansiedade em uma pessoa não necessariamente causará essas mesmas reações em outra.

Diante disso, outra indagação nos surge: se não é possível descrever os seres humanos de forma generalizada, nem tampouco compreender por completo suas ações, seus sentimentos e sensações  com exatidão, como é que a psicologia pode ajudar um indivíduo que sofre com medo, pânico e ansiedade? Simples ou não, o trabalho do analista é escutar e lidar com as mais variadas formas de manifestação do inconsciente. Em outras palavras, o psicólogo busca analisar as entrelinhas da fala e dos comportamentos do sujeito e, através dessa percepção, encontrar uma brecha para “ouvir”o que o inconsciente está dizendo.

Mas, como o inconsciente se materializa? Como o psicólogo entende que algo está vindo do inconsciente da pessoa e não de uma ação consciente? Como nem tudo na psicologia é exato, existem  diferentes formas de se pensar o inconsciente. Sigmund Freud, por exemplo, pai da psicanálise, descreveu o inconsciente como sendo constituído basicamente por conteúdos infantis reprimidos.  Para ele, os desejos infantis reprimidos na infância ficam gravados em nosso inconsciente, que na fase adulta, tais conteúdos latentes começam a manifestar sintomas como neuroses, psicoses e  outros transtornos. Os conteúdos do inconsciente, portanto, são a fonte de sofrimento para o indivíduo, até que ele se dê conta disso através da análise.

Por outro lado, Carl G. Jung, autor da teoria analítica junguiana, para melhor explicar o inconsciente o subdividiu em duas camadas: o inconsciente pessoal, que é bem parecido com a definição  freudiana de inconsciente apresentada acima; e o inconsciente coletivo, que ao invés de estar ligado aos conteúdos individuais da pessoa, está associado com uma noção mais abrangente que interliga todas as culturas e indivíduos, algo transcendental que permeia todo lugar e que se constitui do que ele denominou de “arquétipo” (GUERRA & UEHARA, 2015).

“Jung introduz a noção de arquétipo como sendo uma estrutura do inconsciente coletivo que está ligado a conteúdos mitológicos. (…)  De acordo com Jung, por trás de toda ação humana   ‘sempre haverá oculto […] um mito em roupagem nova e desconcertante’ (JUNG, 2011, p. 118). (…) O conteúdo arquetípico é essencialmente inconsciente, o que significa dizer que não se  trata de uma experiência pessoal do indivíduo, já que a consciência não tem controle algum sobre o arquétipo. Além do aspecto inconsciente, o arquétipo expressa-se por meio de metáforas indecifráveis no campo da razão. Não raro, o arquétipo figura como fonte de sofrimento, comparados por ele à neurose e à psicose” (GUERRA & UEHARA, 2015).

A teoria de Jung pode nos ajudar a compreender melhor o papel do inconsciente na resolução das questões pessoais de um indivíduo. Na psicologia analítica junguiana o mito é parte integrante docomportamento humano. Hillman (2015) afirma que isto ocorre porque apenas as explicações contemporâneas para nossos comportamentos não dão conta de justificar tantos conflitos. Segundo  esse autor:

 “Sejamos tibetanos ou jamaicanos, tenhamos nascido às margens do Mar Vermelho ou Amarelo, sem qualquer resquício de Grécia em nossos ossos e sem a mais vaga ideia sobre os mitos  gregos, porque estamos inexorável e inegavelmente imersos no curso irrefreável do que se tornou a civilização euro-americana atlântica -suas noções sobre leis e educação, tecnologia e raciocínio, psique e pessoa –, para nos conhecermos, devemos retornar à Grécia, onde essa ideia foi acumulada pela primeira vez”  (HILLAMAN, 2015 p. 21).

Assim, mitologia e patologia, segundo Hillman, estão intrinsicamente ligadas através da psique. Para o autor, “o comportamento patológico constitui uma representação mítica”, ou seja, nossas  doenças carregam em seu âmago um mito a que podem ser associadas. Nesse sentido, os deuses da Grécia antiga, personificados por suas características e épicos, podem ser vinculados a cada umade nossas patologias e, somente um retorno a essas raízes ancestrais nos faria chegar ao verdadeiro autoconhecimento (HILLMAN, 2015).

Já que o retorno à Grécia é inevitável, Hillman sugere que ninguém melhor que o nume Pã para nos guiar por esta jornada. Ele é a figura que primeiro surge neste tocante, já que sempre haverá  algum conflito pessoal ou algo que se relaciona com Pã, seja por nossa indignação diante de seus vis comportamentos, seja porque vivenciamos tais comportamentos em nossa própria carne. Pã, o deus-bode, é fálico, sexuado, selvagem e, quando aparece, espalha medo, ansiedade, pânico e horror nas pessoas.

A história de Pã não é menos sombria que seus atos. Não por acaso, a palavra “pânico” deriva de “Pã”. Abandonado por sua mãe, uma ninfa dos bosques, ele foi envolvido em pele de lebre por seu  pai Hermes e levado ao Olimpo. De acordo com a mitologia, Pã agradou a todos (ou pan, em grego) com prazer, e os deuses se identificam com ele de alguma forma (HILLMAN, 2015). Por  transitividade, se Pã reflete a todos os deuses, que de certa forma se associam a alguma patologia humana, nele está contido todas as patologias e conflitos humanos e, de modo especial, aqueles  que dizem respeito à sexualidade.

Pã é a representação de “estupro, masturbação, pânico noturno, sedução das ninfas” (HILLMAN, 2015) entre outros atributos que levam as pessoas a saírem de seu status de “seres civilizados” e  que lhes despertam os instintos mais primitivos. Sendo metade homem, metade bode, Pã tem como habitat os bosques e lugares selvagens, longe dos vilarejos e da civilidade. Vive na penumbra,  em grutas e cavernas escuras. Dessa forma, retornar à Grécia com Pã não é mera idealização, mas simboliza descer à caverna que existe dentro de nós. É ir ao encontro de nosso lado mais sombrio e indomesticado.

Levando em conta tudo isso, é possível afirmar que não há no mundo outra ciência que não a psicologia que seja capaz de levar o indivíduo a esse lugar. Sofrer de pânico, ansiedade ou medo é  apenas a ponta do iceberg. Na realidade, o sintoma se caracteriza como a parte visível de algo muito mais profundo que emana do inconsciente e que deve ser tratado com psicoterapia e não  apenas com medicação.

Apesar de não ser uma regra geral, muitas das angústias das pessoas que sofrem de pânico e ansiedade podem estar relacionados a conflitos sexuais importantes, ou mesmo a uma situação de  abandono, dentre outras inumeráveis experiências de vida que só virão à tona ao longo de uma psicoterapia. Sendo o deus que reflete todos os outros, Pã é o caminho para o retorno à Grécia, a  trilha para alcançar o inconsciente do indivíduo sofrente.

Nota-se ainda que identificar-se demasiadamente com Pã pode ser um risco para saúde mental do sujeito. Segundo Hillman (2015), nos tornamos “mais psicopatológicos” quando a fantasia de um ato tido como vil acaba se  tornando uma realidade, mesmo que de forma sutil e discreta. Dessa maneira, a psique passa da metáfora para literalidade e acaba se despedaçando em ruínas. Isto quer dizer que aquilo que  deveria estar restrito ao campo da fantasia concretiza-se numa ação real, de modo que a mente não consegue mais lidar com isso e se manter íntegra e intacta, e acaba se esfacelando.

Em contrapartida, “nós nos tornamos menos psicopatológicos quando podemos restaurar a apreciação metafórica do que nos acontece. A terapia fala de ‘insight psicológico’, o que poderia  significar a reconexão da fantasia com o comportamento e a dissolução do literalismo através do poder do insight” (HILLMAN, 2015). Em outras palavras, ao falar durante uma sessão de terapia, osujeito vai se dando conta de seus comportamentos e entendendo o motivo pelo qual tem agido dessa ou daquela forma. Com isso, o indivíduo vai identificando o que gostaria de mudar em si  próprio: é um caminho de autoconhecimento que faz a pessoa se descobrir e assumir cada vez mais o que realmente é sem medo de ser julgada por isso.

É um percurso longo que não pode ser trilhado por outra pessoa que não o próprio sujeito. Nesse caminho ele não irá sozinho, o terapeuta estará com ele até que ele possa lidar com seu sofrimentode maneira mais equilibrada e consiga assumir sua condição de vida. Felizmente, não existe cura para o que somos, pelo contrário, somos mais felizes quando identificamos o que realmente somos e vivemos isso em sua plenitude.

Referências

BAPTISTA, Américo; CARVALHO, Marina; LORY, Fátima. O medo, a ansiedade e as suas perturbações. Psicologia, v. 19, n. 1-2, p. 267-277, 2005. Disponível em <http://www.scielo.mec.pt/pdf/psi/v19n1-2/v19n1-2a13.pdf>. acessos em 21 fev. 2016

GUERRA, Rafael Henrique. Medo, ansiedade e transtorno do pânico. Disponível em < http://www.rafaelguerrapsicologo.com.br/2016/02/24/medo-ansiedade-e-transtorno-de-panico/>. acessos em 18 set. 2016.

GUERRA, Rafael Henrique e UEHARA, Silvia Kazumi. O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry, sob a ótica da psicologia analítica junguiana. São Paulo: Centro Universitário São Camilo, 2015. 80 p.

HILLMAN, James. Pã e o pesadelo. São Paulo. Paulus, 2015.